Leituras recomendadas: Huxley, Orwell e Postman

Parte do trabalho que fazemos com os alunos da TICPE envolve a utilização de obras da Literatura e do Cinema que julgamos pertinentes a discussões sobre as relações entre Tecnologia e Educação. Dentre nossas recomendações, figuram, com especial destaque, os livros 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. O contraponto entre os cenários imaginados por esses escritores ingleses abre um leque de possibilidades interessantes para pensarmos sobre o mundo atual, conforme sugerido por Neil Postman no prefácio de seu livro Amusing ourselves to death. Public Discourse in the Age of Show Business (edição original de 1985).

Mesmo tendo sido escrito bem antes da Web aparecer, o livro de Postman permanece bastante atual e, assim, figura em nossa lista de recomendações de leitura complementar (opcional, pois não parece haver nenhuma tradução para o português). A edição comemorativa de 20 anos de publicação da obra (Londres: Penguin, 2005) inclui uma introdução que discute a relevância continuada da crítica oferecida por Postman (que também têm críticos – mas isso é uma outra história…).

Compartilho abaixo uma tradução do prefácio – e recomendo fortemente a leitura dos livros!

Estávamos de olho em 1984. Quando o ano chegou e a profecia não se cumpriu, os norte-americanos (estadunidenses) sérios cantaram docemente em louvor a si mesmos. As raízes da democracia liberal se haviam sustentado. Onde quer que o terror houvesse se materializado, nós, pelo menos, não fôramos visitados pelos pesadelos de Orwell.

No entanto, havíamos esquecido que, ao lado da visão sombria de Orwell, havia outra – mais velha, ligeiramente menos conhecida, igualmente deprimente: o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Em oposição à crença generalizada até mesmo dentre os mais cultos, Huxley e Orwell não profetizaram a mesma coisa. Orwell avisa que seremos subjugados por uma opressão externamente imposta. Na visão de Huxley, porém, nenhum Grande Irmão é necessário para privar as pessoas de sua autonomia, maturidade e história. Segundo ele, as pessoas virão a amar sua opressão, a adorar as tecnologias que destroem suas capacidades de pensar.

Orwell temia aqueles que banissem os livros. Huxley temia que não houvesse motivos para se banir os livros, pois não haveria quem os quisesse ler. Orwell temia aqueles que nos privassem de informação. Huxley temia aqueles que nos dessem tanta informação que ficaríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade nos fosse ocultada. Huxley temia que a verdade se afogasse em um mar de irrelevância. Orwell temia que nos tornássemos uma cultura cativa. Huxley temia que nos tornássemos uma cultura trivial, preocupada com algum equivalente do CinemaSensível, do Orgião-espadão e da Balatela Centrífuga. Conforme Huxley observou em Admirável Mundo Novo, os libertários e racionalistas civis que estão para sempre em alerta para opor a tirania “fracassaram ao ignorar o apetite quase infinito do homem por distrações”. Em 1984, Huxley complementou, o homem é controlado por meio da dor. No Admirável Mundo Novo, o controle é por meio do prazer. Em suma, Orwell temia que aquilo que detestamos nos arruinará. Huxley temia que aquilo que amamos nos arruinará.

Este livro é sobre a possiblidade de que Huxley, não Orwell, estava certo.

POSTMAN, N. Amusing ourselves to death. (p. xix-xx). Londres: Penguin, 2005.

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