Qualidade na Educação Superior – reflexões sobre um trabalho de tradução

Por Giselle Ferreira e Laélia Moreira

Este post reúne alguns comentários relativos ao nosso trabalho de tradução da revisão de literatura sobre qualidade na Educação Superior conduzida por Lee Harvey (Membro da International Network for Quality Assurance Agencies in Higher Education, INQQAHE, e Professor Emérito da Copenhagen Business School, Dinamarca) e James Williams (Professor na Escola de Educação da Birmingham City University, Reino Unido), publicada em 2010 na revista Quality in Higher Education (HARVEY; WILLIAMS, 2010a; 2010b). A tradução, em si, constitui um produto do projeto Qualidade no Ensino Superior a Distância para a Formação de Professores: um mapeamento crítico (MOREIRA; FERREIRA, 2012), e foi desenvolvida, inicialmente, com o objetivo de viabilizar a utilização do texto com nossos alunos de pós-graduação que contribuem para a execução do projeto. No entanto, dada a riqueza do trabalho, bem como a importância do debate correspondente no Brasil, com a permissão e o aval dos autores do texto original, decidimos refinar a versão inicial e submetê-la à apreciação da revista Educação e Cultura Contemporânea para uma possível publicação.

É com grande satisfação que podemos, agora, divulgar a tradução, publicada em duas partes, como o texto original, nos dois números mais recentes da REEDUC, acessíveis através dos links a seguir: Parte I e Parte II.

A revisão de Harvey e Williams oferece uma análise da área de garantia de qualidade na Educação Superior (ES), baseada nas contribuições publicadas na própria Quality in Higher Education, uma das revistas mais conceituadas na área da Educação Superior (ES). Assim, ainda que não se trate de uma revisão exaustiva da literatura, por demais extensa não somente no idioma inglês, mas, também, no Brasil, constitui uma amostra significativa dos desenvolvimentos ocorridos, na área, de 1995 a 2010, das temáticas centrais às discussões sobre qualidade conduzidas ainda hoje, oferecendo, desse modo, uma visão geral e um mapeamento possível da área. Nosso propósito, nessa breve introdução, é apresentar algumas informações complementares que possam vir a ser úteis a outros pesquisadores e estudantes, principalmente àqueles que estejam iniciando seus estudos na área.

De modo a explicitar nossa ideia de que o texto pode ser visto como um mapa da área, elaboramos alguns esquemas gráficos que representam as temáticas abordadas e a presença de diferentes países na discussão internacional, incluindo o Brasil. As figuras 1 e 2 apresentam as temáticas discutidas nas Partes I e II do texto, respectivamente, e a figura 3 mostra as regiões e países representados nos estudos incluídos na análise. A presença de trabalhos desenvolvidos no Brasil na área de garantia de qualidade é pequena, na revisão, o que, segundo nossas investigações, não reflete a extensão da pesquisa e da literatura acadêmica produzida sobre o assunto no país.

Vale ressaltar que a expansão da presença das TIC na Educação não é tratada de forma sistemática nos trabalhos incluídos na revisão, mas isso não significa que não se trate de contingência fundamental às transformações contemporâneas da ES e, assim, às várias temáticas abordadas na revisão.

Temáticas Parte I

Figura 1: Mapa das temáticas tratadas na Parte I da revisão (HARVEY; WILLIAMS, 2010a) 

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Temáticas Parte II

Figura 2: Mapa das temáticas tratadas na Parte II da revisão (HARVEY; WILLIAMS, 2010b)

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Sistemas Nacionais

Figura 3: Mapa das regiões e países representados na revisão

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Não é necessário conduzir-se uma análise aprofundada dos textos para que se identifique a predominância de discursos empresariais e de gestão em muitos dos artigos analisados por Harvey e Williams. Alguns desses trabalhos oferecem pistas relativas à gradual adoção de tais discursos na Educação, sugerindo uma clara relação com os processos de mercantilização da Educação e corporativização da Educação Superior.

Esses processos tomam formas variadas em contextos diferentes, em correlação com contingências tais como o sistema de financiamento e normatização da ES, bem como as tradições e culturas acadêmicas locais. Parece tratar-se de uma área interdisciplinar desconfortavelmente situada entre a Educação e a Gestão, conforme os trabalhos examinados na Parte II, em particular, atestam.

Essa Parte evidencia, especialmente, no que se refere à avaliação e garantia de qualidade, as fortes tensões entre agendas de uma ES que funcione top-down (da gestão para o corpo acadêmico) ou bottom-up (do corpo acadêmico para níveis gradativamente mais numerosos de gestão). Esse é o contexto geral internacional, particularmente na União Europeia, onde a movimentação na direção da unificação das qualificações de instituições de ES nos países integrantes imposta pelo Tratado de Bolonha, bem como as múltiplas transformações e reconfigurações dos sistemas nacionais de financiamento da ES, principalmente no Reino Unido, estão gradativamente fortalecendo modos de gestão educacional top-down.

Ao longo da tradução, lançamos mão de notas de rodapé (N.T.) para incluir elucidações e detalhes sobre especificidades dos sistemas educacionais de outros países, principalmente do Reino Unido e alguns outros países da Europa, bem como explicações sobre idiossincrasias dos termos em inglês utilizados na área. Um dos termos recorrentes é o substantivo academic, que traduzimos como “acadêmico”, apesar das diferenças entre conotações nos dois idiomas. O academic inglês é, primordialmente, um pesquisador-professor, que, via de regra, trabalha em uma única universidade. Isso configura uma situação bastante distinta daquela vivida pelo professor da Educação Superior no Brasil.

Em outros casos, optamos por manter o termo em seu original, para manter a consistência com a literatura nacional ou evitar expressões muito longas (por exemplo, stakeholder, benchmarking e compliance, ou seja, partes interessadas, criação de termos de referência e cumprimento das normas, respectivamente), ou por tratar-se de uma expressão sem equivalente satisfatório em português, como value for money, por exemplo, ou seja, a ideia de algo que tem um custo aceitável e é eficaz ou admissível, em comparação a alternativas talvez melhores, porém mais onerosas.

Tentamos também indicar variações linguísticas entre os sistemas nacionais. Um exemplo é o termo e-learning, cujo uso na Europa é muito mais abrangente do que no Brasil, e manter, ao máximo, alguma fidelidade a termos e expressões idiossincráticas de autores, como grassroots academics, trust killers e sense of coherence, dentre outras. Adicionalmente, tendo em vista um público que talvez viesse a incluir iniciantes ou não-especialistas nas linguagens da gestão, oferecemos também algumas explicações e referências adicionais complementares, tais como, “organizações que aprendem” e “comunidades de prática”.

A situação no Brasil é, naturalmente, diferente da maior parte dos contextos estudados nos textos incluídos na revisão de Harvey e Williams, mas reflexos, no país, da internacionalização da ES são claros, e as controvérsias em torno da Educação a Distância, em particular, tornam essencial a questão da avaliação da qualidade.

Muitos dos textos analisados dedicam-se à questão de definir “qualidade”, e os próprios autores da revisão são referências básicas na temática, citados com frequência por autores brasileiros. Trata-se de uma questão recorrente e fundamental nos debates na área, mas que pode levar a uma certa esterilidade. Ao que indica a revisão de numerosos trabalhos a ela dedicados, não parece ser solucionável sem relação a especificidades contextuais, e sem considerar-se o que pode ser descrito como um “choque cultural” entre a cultura acadêmica mais “tradicional” e as perspectivas empresariais que sustentam grande parte da discussão sobre garantia de qualidade.

Harvey (2010) é bem explícito em seu julgamento do impacto da garantia de qualidade, afirmando que essa não apenas simplesmente falhou em não ter concretizado uma aproximação entre essas culturas, mas, também, fomentou a falta de confiança entre as partes interessadas (docentes, alunos, funcionários administrativos e gestores) evidenciada em parte das pesquisas analisadas na revisão. A percepção de que os processos de avaliação de qualidade são conduzidos ritualisticamente, de acordo com scripts e caracterizados por certa teatralidade, como uma forma de adaptação a demandas externas de garantia de qualidade, conforme sugerido por Barrow (1999), não é consistente com a noção de que tais processos fomentam melhoria e transformação.

Os autores finalizam sua análise indagando se a qualidade da ES poderia ter melhorado sem a instituição de sistemas de garantia de qualidade. No Brasil, nos parece que seria um capricho lançar tal questão de forma simplesmente retórica, quando o foco em “qualidade” talvez seja a única saída do dilema público-privado que caracteriza muitos dos debates sobre a ES.

Clique aqui para acessar a Parte I da tradução.

Clique aqui para acessar a Parte II da tradução.

Referências

BARROW, M. Quality-management systems and dramaturgical compliance, Quality in Higher Education, v. 5, n. 1, p. 27–36, 1999.

MOREIRA, L. C. P.; FERREIRA, G. M. S. Qualidade no Ensino Superior a Distância para a Formação de Professores: um mapeamento crítico. Projeto de Pesquisa. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estácio de Sá. Disponível em: < https://ticpe.wordpress.com/pesquisa/#Discursos >. Acesso em: 15 mar. 2014.

HARVEY, L. Twenty years of trying to make sense of quality assurance: the misalignment of quality assurance with institutional quality frameworks and quality culture. In: 5th European Quality Assurance Forum. Building Bridges: Making sense of QA in European, national and institutional contexts. Disponível em: < http://www.eua.be/Libraries/EQAF_2010/WGSII_7_Papers_Harvey.sflb.ashx>. Acesso em: 17 fev. 2014.

HARVEY, L.; WILLIAMS, 2010a. Fifteen years of Quality in Higher Education. Quality in Higher Education, v. 16, n. 1, p. 3-36, 2010.

HARVEY, L.; WILLIAMS, 2010b. Fifteen years of Quality in Higher Education (Part Two). Quality in Higher Education, v. 16, n. 2, p. 81-113, 2010.

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