Tecnologia, educação e Gould: “mind the bullshit” (divagações de uma tarde de domingo)

Já faz algum tempo que este blog tem sido usado mais como quadro de avisos do que da forma que originalmente planejáramos: um espaço de compartilhamento e discussão de questões interessantes e relevantes. Obviamente, tempo (falta de?) é uma questão (explicação) fundamental, mas, passou-me hoje mais cedo pela newsfeed do Facebook uma postagem sobre “ensino de música a distância” que me deixou com uma enorme necessidade de encontrar formas de redirecionar os pensamentos. Fiquei a imaginar, em múltiplas e coloridas distopias, como poderia ter sido a formação de Glenn Gould com base em trocas de pfd’s e mp3’s e encontros via Skype... (pensei não somente na formação do instrumentista, mas, também, na formação do “mito Gould”, incluindo a criação de algumas veneradas gravações feitas por ele). Comecei, então, a esboçar este post, enquanto fazia anotações que podem vir (talvez?) a se tornar uma resenha.

Obviamente, não sou avessa a “inovações”, e não é a dita questão da “mediação tecnológica” que me preocupa (se bem que, realmente, há problemas bem práticos – por exemplo, banda?), especificamente, mas, sim, me parece estranha a ideia de que se pode “ensinar música” com os artefatos mencionados. De fato, estou me referindo, em particular, à formação do instrumentista, que também requer processos de disciplina do corpo. A ideia me parece, simplesmente, ludicrous (não consigo pensar em uma boa palavra em português no momento, perdoem-me). Resolvi buscar alguma outra coisa para me ocupar os pensamentos, e passei a refletir sobre o último número da revista Learning, Media and Technologydedicado a discussões críticas acerca da Educational Technology (para nós, seria TIC na Educação, não Tecnologia Educacional, exatamente – mas isso é outro assunto!).

Em particular, foi o Editorial de Neil Selwyn que me veio à mente: “Tomando cuidado com a nossa linguagem: porque a área da tecnologia na educação está cheia de baboseiras… e o que pode ser feito a respeito disso”. No original, o autor usa o termo coloquial bullshit (não exatamente anátema, mas uma palavra chula), traduzido no Google Translate como “treta”, que não usamos comumente no Brasil (que eu saiba – disclaimer para que meus alunos depois não reclamem que estou generalizando sem fundamentação!) e que, em Portugal, tem conotações bem diferentes. Que seja como for – com essas considerações, consegui, divertindo-me, (mais ou menos) neutralizar os efeitos desagradáveis (ou seja, uma grande irritação) que me causaram as imagens de Gould, ainda criança, tentando comunicar-se por chat com seu tutor instrumental (ou mesmo com seu engenheiro de som) acerca da execução de alguma passagem das Variações Goldberg

O texto de Selwyn é mais uma pérola de um autor que oferece em seus trabalhos uma combinação de aprofundamento teórico com elementos de linguagem coloquial (incluindo alguns neologismos, por vezes, até engraçados), tornando-os (penso eu) mais acessíveis do que alguns dos textos de cunho mais filosófico que temos utilizado na TICPE. Infelizmente, conheço apenas dois artigos do autor que foram traduzidos para o nosso idioma: O uso das TIC na educação e promoção de inclusão social: uma perspectiva crítica do Reino Unido (publicado na revista Educação e Sociedade, 2008) e Em defesa da diferença digital: uma abordagem crítica sobre os desafios da Web 2.0 (não sei detalhes sobre essa tradução, mas está disponível no espaço do autor no academia.edu, com data de 2011). Selwyn tem, também, vários livros excelentes, mas, que eu saiba, apenas Telling Tales on Technology: qualitative studies of technology and education (2002) está livremente disponível.

Adotando uma perspectiva discursivo-crítica à área, Selwyn, em essência, defende a necessidade de maior atenção a questões relativas à linguagem. O texto constitui uma crítica veemente, ainda que marcada por um certo senso de humor (irônico), à retórica utilizada na esmagadora maioria das discussões sobre os usos das TIC na educação. Trazendo elementos da discussão de Harry Frankfurt em On Bullshit (2005 – veja, aqui, um artigo relevante), Selwyn sugere, simplesmente, que “muito do que se diz sobre educação e tecnologia pode ser classificado como bullshit“. Na construção de seu argumento, o autor critica as hipérboles (exageros), a ausência de fundamentação teórico-reflexiva (as visões excessivamente otimistas ou prometeicas da tecnologia) e a frequente falta de apoio na empiria, que contribuem para a naturalização e universalização de ideias que, de fato, mal escondem posicionamentos ideológicos passíveis de duras críticas.

Dessa forma, defende a noção de que a terminologia da área tende a construir formas específicas de pensar a respeito da presença das TIC na educação. Um exemplo que acho particularmente interessante, dentre outros mencionados, é o uso frequente de termos relativos a “aprendizagem” nos rótulos da EdTech – “Ambiente Virtual de Aprendizagem”, “Aprendizagem conectada”, “Sistemas inteligentes de tutoria”. Tais termos, segundo Selwyn, “implicam um propósito inequívoco para as tecnologias digitais na educação, ou seja, servir como uma ferramenta na busca da aprendizagem” com total descaso pela contingência (algo que muito me incomoda na literatura do gênero “futurologia” – no post de ontem cheguei a mencionar a questão do uso de linguagem alarmista e cataclísmica na defesa dos “discursos da educação quebrada“).

Traçando um paralelo com a discussão da noção de “esquecimento organizado” de Henry Giroux em The violence of organized forgetting (2014), que focaliza questões estadunidenses, Selwyn sugere que:

as formas nas quais a tecnologia digital é discutida nos círculos educacionais certamente racionalizam aspectos superficiais, efêmeros e, frequentemente, banais da temática às custas de um engajamento continuado com suas políticas confusas. Há, também, linguagem que rotineiramente normaliza questões de opressão, desigualdade e injustiça. Há pouco – se é que há – reconhecimento de diferenças de classe, etnia, gênero, e outras atribuições sociais. Da mesma forma, há linguagem que oferece compreensão parca da economia política de um mercado de tecnologia educacional avaliado em mais de 5 trilhões de dólares. Quando abordada de qualquer uma dessas perspectivas, a área das TIC na educação pode ser criticada, de modo justificado, como um sítio de esquecimento organizado.

No original:

the ways that digital technology is talked about within educational circles certainly extenuate superficial, ephemeral and often banal aspects of the topic at the expense of any sustained engagement with its messy politics. This is also language that routinely normalizes matters of oppression, inequality and injustice. There is little if any acknowledgement of differences of class, race, gender, disability or other social ascription. Similarly, this is language that offers scant insight into the political economy of an education technology marketplace reckoned to be worth in excess of $5 trillion. When seen from any of these perspectives, then education and technology can be justifiably criticized as a site of organized forgetting.

Os outros textos do mesmo número da revista são igualmente veementes em suas respectivas críticas a tópicos, temáticas e discursos em torno de rótulos específicos da EdTech. Em particular, recomendo o artigo de Lesley Gourlay, “Educação aberta como um ‘heterotopia do desejo'”. Neste texto, a crítica parte das obras de Latour e de Foucault, tendo a “Educação Aberta” como tópico (alvo!) e vindo ao encontro de algumas das minhas reflexões sobre mais este rótulo da EdTech, que iniciei a partir da publicação deste trabalho. Veja o resumo (em tradução que precisaria ser muito melhorada):

O movimento da “abertura” na educação tem se posicionado como inerentemente democrático, radical, igualitário e crítico em relação aos poderosos sentinelas (gatekeepers) da aprendizagem. Ao passo que “abertura” é, frequentemente, posicionada como uma crítica, defenderei que os discursos correntes – ainda que pareçam opor as operações de poder em larga escala – de fato reforçam uma fantasia de um aparato institucional panóptico e todo-poderoso. O sujeito humano é idealizado como capaz de gerar conhecimento de ordem superior sem recurso à expertise, ao cânone do conhecimento ou ao desenvolvimento apoiado (scaffolding). Isso destaca uma interente contradição entre esse movimento e a teoria educacional crítica, que se opõe a narrativas de futuros utópicos possíveis oferecendo contrapontos teóricos e empiria que revelam diversidade e complexidade, e resistindo a tentativas de definição, tipologia e imutabilidade. O argumento será substanciado com referência a uma estudo qualitativo longitudinal multimodal conduzido ao longo de um ano com estudantes acerca de seu envolvimento cotidiano com as tecnologias na Educação Superior, o qual foi combinado com um estudo mais curto que focalizou o engajamento de pessoal acadêmico. Partindo de perspectivas sociomateriais, concluirei que as reivindicações de “radicalismo” do movimento da “abertura” em educação pode, de fato, servir para reforçar e não desafiar o pensamento utópico, fantasias do humano, categorias sociais monolíticas, imutabilidade e poder, e, assim, podem indicar uma ´heterotopia do desejo´.

Em tempo: a revista é excelente, ainda que não ofereça acesso livre (e, ironicamente, não tenha Qualis/CAPES), então recomendo a leitura (avisando, no entanto, que a leitura demanda um conhecimento, no mínimo, razoável, do inglês, pois os textos tendem a ser relativamente complexos). Lembro que, na falta de acesso à publicação, uma alternativa muito boa é entrar em contato diretamente com o(s) autor(es) e pedir uma preprint (cópia não formatada ou versão preliminar da publicação, que é o tipo de texto sendo compartilhado em repositórios institucionais e/ou em espaços pessoais dos autores na Web).

Atualização em 31/05/15🙂 : descobri, durante a semana que se passou desde que publiquei esse post, que “treta” está, sim, no vocabulário nacional. Segundo minha filha (que tem 17 anos), significa “confusão” – e acompanhando os eventos da semana, vi a palavra em dois ou três postagens sobre a “treta” que se passou na UERJ. As palavras estão, realmente, ao vento – a linguagem é viva, se transforma, e o dicionário pode, no máximo, correr atrás (ou olhar para trás?), em busca de significados e definições que serão sempre, na melhor da hipótese, localizadas e provisórias…

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