Divagando

Tecnologia, educação e Gould: “mind the bullshit” (divagações de uma tarde de domingo)

Já faz algum tempo que este blog tem sido usado mais como quadro de avisos do que da forma que originalmente planejáramos: um espaço de compartilhamento e discussão de questões interessantes e relevantes. Obviamente, tempo (falta de?) é uma questão (explicação) fundamental, mas, passou-me hoje mais cedo pela newsfeed do Facebook uma postagem sobre “ensino de música a distância” que me deixou com uma enorme necessidade de encontrar formas de redirecionar os pensamentos. Fiquei a imaginar, em múltiplas e coloridas distopias, como poderia ter sido a formação de Glenn Gould com base em trocas de pfd’s e mp3’s e encontros via Skype... (pensei não somente na formação do instrumentista, mas, também, na formação do “mito Gould”, incluindo a criação de algumas veneradas gravações feitas por ele). Comecei, então, a esboçar este post, enquanto fazia anotações que podem vir (talvez?) a se tornar uma resenha.

Obviamente, não sou avessa a “inovações”, e não é a dita questão da “mediação tecnológica” que me preocupa (se bem que, realmente, há problemas bem práticos – por exemplo, banda?), especificamente, mas, sim, me parece estranha a ideia de que se pode “ensinar música” com os artefatos mencionados. De fato, estou me referindo, em particular, à formação do instrumentista, que também requer processos de disciplina do corpo. A ideia me parece, simplesmente, ludicrous (não consigo pensar em uma boa palavra em português no momento, perdoem-me). Resolvi buscar alguma outra coisa para me ocupar os pensamentos, e passei a refletir sobre o último número da revista Learning, Media and Technologydedicado a discussões críticas acerca da Educational Technology (para nós, seria TIC na Educação, não Tecnologia Educacional, exatamente – mas isso é outro assunto!).

Em particular, foi o Editorial de Neil Selwyn que me veio à mente: “Tomando cuidado com a nossa linguagem: porque a área da tecnologia na educação está cheia de baboseiras… e o que pode ser feito a respeito disso”. No original, o autor usa o termo coloquial bullshit (não exatamente anátema, mas uma palavra chula), traduzido no Google Translate como “treta”, que não usamos comumente no Brasil (que eu saiba – disclaimer para que meus alunos depois não reclamem que estou generalizando sem fundamentação!) e que, em Portugal, tem conotações bem diferentes. Que seja como for – com essas considerações, consegui, divertindo-me, (mais ou menos) neutralizar os efeitos desagradáveis (ou seja, uma grande irritação) que me causaram as imagens de Gould, ainda criança, tentando comunicar-se por chat com seu tutor instrumental (ou mesmo com seu engenheiro de som) acerca da execução de alguma passagem das Variações Goldberg

O texto de Selwyn é mais uma pérola de um autor que oferece em seus trabalhos uma combinação de aprofundamento teórico com elementos de linguagem coloquial (incluindo alguns neologismos, por vezes, até engraçados), tornando-os (penso eu) mais acessíveis do que alguns dos textos de cunho mais filosófico que temos utilizado na TICPE. Infelizmente, conheço apenas dois artigos do autor que foram traduzidos para o nosso idioma: O uso das TIC na educação e promoção de inclusão social: uma perspectiva crítica do Reino Unido (publicado na revista Educação e Sociedade, 2008) e Em defesa da diferença digital: uma abordagem crítica sobre os desafios da Web 2.0 (não sei detalhes sobre essa tradução, mas está disponível no espaço do autor no academia.edu, com data de 2011). Selwyn tem, também, vários livros excelentes, mas, que eu saiba, apenas Telling Tales on Technology: qualitative studies of technology and education (2002) está livremente disponível.

Adotando uma perspectiva discursivo-crítica à área, Selwyn, em essência, defende a necessidade de maior atenção a questões relativas à linguagem. O texto constitui uma crítica veemente, ainda que marcada por um certo senso de humor (irônico), à retórica utilizada na esmagadora maioria das discussões sobre os usos das TIC na educação. Trazendo elementos da discussão de Harry Frankfurt em On Bullshit (2005 – veja, aqui, um artigo relevante), Selwyn sugere, simplesmente, que “muito do que se diz sobre educação e tecnologia pode ser classificado como bullshit“. Na construção de seu argumento, o autor critica as hipérboles (exageros), a ausência de fundamentação teórico-reflexiva (as visões excessivamente otimistas ou prometeicas da tecnologia) e a frequente falta de apoio na empiria, que contribuem para a naturalização e universalização de ideias que, de fato, mal escondem posicionamentos ideológicos passíveis de duras críticas.

Dessa forma, defende a noção de que a terminologia da área tende a construir formas específicas de pensar a respeito da presença das TIC na educação. Um exemplo que acho particularmente interessante, dentre outros mencionados, é o uso frequente de termos relativos a “aprendizagem” nos rótulos da EdTech – “Ambiente Virtual de Aprendizagem”, “Aprendizagem conectada”, “Sistemas inteligentes de tutoria”. Tais termos, segundo Selwyn, “implicam um propósito inequívoco para as tecnologias digitais na educação, ou seja, servir como uma ferramenta na busca da aprendizagem” com total descaso pela contingência (algo que muito me incomoda na literatura do gênero “futurologia” – no post de ontem cheguei a mencionar a questão do uso de linguagem alarmista e cataclísmica na defesa dos “discursos da educação quebrada“).

Traçando um paralelo com a discussão da noção de “esquecimento organizado” de Henry Giroux em The violence of organized forgetting (2014), que focaliza questões estadunidenses, Selwyn sugere que:

as formas nas quais a tecnologia digital é discutida nos círculos educacionais certamente racionalizam aspectos superficiais, efêmeros e, frequentemente, banais da temática às custas de um engajamento continuado com suas políticas confusas. Há, também, linguagem que rotineiramente normaliza questões de opressão, desigualdade e injustiça. Há pouco – se é que há – reconhecimento de diferenças de classe, etnia, gênero, e outras atribuições sociais. Da mesma forma, há linguagem que oferece compreensão parca da economia política de um mercado de tecnologia educacional avaliado em mais de 5 trilhões de dólares. Quando abordada de qualquer uma dessas perspectivas, a área das TIC na educação pode ser criticada, de modo justificado, como um sítio de esquecimento organizado.

No original:

the ways that digital technology is talked about within educational circles certainly extenuate superficial, ephemeral and often banal aspects of the topic at the expense of any sustained engagement with its messy politics. This is also language that routinely normalizes matters of oppression, inequality and injustice. There is little if any acknowledgement of differences of class, race, gender, disability or other social ascription. Similarly, this is language that offers scant insight into the political economy of an education technology marketplace reckoned to be worth in excess of $5 trillion. When seen from any of these perspectives, then education and technology can be justifiably criticized as a site of organized forgetting.

Os outros textos do mesmo número da revista são igualmente veementes em suas respectivas críticas a tópicos, temáticas e discursos em torno de rótulos específicos da EdTech. Em particular, recomendo o artigo de Lesley Gourlay, “Educação aberta como um ‘heterotopia do desejo'”. Neste texto, a crítica parte das obras de Latour e de Foucault, tendo a “Educação Aberta” como tópico (alvo!) e vindo ao encontro de algumas das minhas reflexões sobre mais este rótulo da EdTech, que iniciei a partir da publicação deste trabalho. Veja o resumo (em tradução que precisaria ser muito melhorada):

O movimento da “abertura” na educação tem se posicionado como inerentemente democrático, radical, igualitário e crítico em relação aos poderosos sentinelas (gatekeepers) da aprendizagem. Ao passo que “abertura” é, frequentemente, posicionada como uma crítica, defenderei que os discursos correntes – ainda que pareçam opor as operações de poder em larga escala – de fato reforçam uma fantasia de um aparato institucional panóptico e todo-poderoso. O sujeito humano é idealizado como capaz de gerar conhecimento de ordem superior sem recurso à expertise, ao cânone do conhecimento ou ao desenvolvimento apoiado (scaffolding). Isso destaca uma interente contradição entre esse movimento e a teoria educacional crítica, que se opõe a narrativas de futuros utópicos possíveis oferecendo contrapontos teóricos e empiria que revelam diversidade e complexidade, e resistindo a tentativas de definição, tipologia e imutabilidade. O argumento será substanciado com referência a uma estudo qualitativo longitudinal multimodal conduzido ao longo de um ano com estudantes acerca de seu envolvimento cotidiano com as tecnologias na Educação Superior, o qual foi combinado com um estudo mais curto que focalizou o engajamento de pessoal acadêmico. Partindo de perspectivas sociomateriais, concluirei que as reivindicações de “radicalismo” do movimento da “abertura” em educação pode, de fato, servir para reforçar e não desafiar o pensamento utópico, fantasias do humano, categorias sociais monolíticas, imutabilidade e poder, e, assim, podem indicar uma ´heterotopia do desejo´.

Em tempo: a revista é excelente, ainda que não ofereça acesso livre (e, ironicamente, não tenha Qualis/CAPES), então recomendo a leitura (avisando, no entanto, que a leitura demanda um conhecimento, no mínimo, razoável, do inglês, pois os textos tendem a ser relativamente complexos). Lembro que, na falta de acesso à publicação, uma alternativa muito boa é entrar em contato diretamente com o(s) autor(es) e pedir uma preprint (cópia não formatada ou versão preliminar da publicação, que é o tipo de texto sendo compartilhado em repositórios institucionais e/ou em espaços pessoais dos autores na Web).

Atualização em 31/05/15 🙂 : descobri, durante a semana que se passou desde que publiquei esse post, que “treta” está, sim, no vocabulário nacional. Segundo minha filha (que tem 17 anos), significa “confusão” – e acompanhando os eventos da semana, vi a palavra em dois ou três postagens sobre a “treta” que se passou na UERJ. As palavras estão, realmente, ao vento – a linguagem é viva, se transforma, e o dicionário pode, no máximo, correr atrás (ou olhar para trás?), em busca de significados e definições que serão sempre, na melhor da hipótese, localizadas e provisórias…

Internacionalização, de novo (por Tarso Mazzotti)

Internacionalização, de novo

Por Tarso Mazzotti 

Há os que se opõem à internacionalização das pesquisas na área Educação. Parece-me ser um dos muitos enganos correntes. Por quê? Porque as teorias utilizadas raramente foram produzidas no Brasil. Aliás, o próprio nome da área (Educação) expressa seu uso em inglês, quando antes utilizávamos Pedagogia, este também originados no exterior. Por que não utilizamos Ciências da Educação para nomear a área? Porque, neste caso, a filosofia fica de fora… No entanto, Ciências da Educação é mais comum no exterior, inclusive em Portugal.

A recusa do reconhecimento das pesquisas produzidas em outros países, em particular nos Estado Unidos da América, exprime uma tomada de posição ideológica, que tem por núcleo a identificação daquele com o Imperialismo. Mas essa recusa pode ser mais abrangente, pois há comitês editoriais que rejeitam trabalhos por não citarem autores nacionais, ou utilizarem autores muito antigos, como Aristóteles, e isto no campo da Filosofia da Educação.

Parece-me que a recusa da internacionalização tem uma origem em uma atitude, uma conduta recorrente, a recusa da erudição. Essa atitude (os gregos denominavam ethos. Ih! Isto cheira erudição, logo…) parece orientar-se pelo seguinte enunciado: apenas o atual é valioso. Por isso, no caso da Educação, alguns problemas considerados nossos contemporâneos apresentam-se como novidades, quando foram tratados cuidadosamente por autores antigos. Exemplo? A educabilidade. Educabilidade? A qualidade educativa de algo, como um conjunto de conhecimentos. Os defensores o trivium e do quadrivium consideravam que as disciplinas escolares iniciais, as do ensino básico, seriam as que viabilizam o desenvolvimento da pessoa, tornando-as melhores, mais capazes no domínio de seus processos de pensamento, de argumentação, o que implica dominar a língua (gramática, retórica e dialética ou lógica). Depois seria preciso dominar os instrumentos intelectuais para tratarem das coisas do mundo (geometria, aritmética, astrologia e harmonia ou música). Essa educação liberal, por não servir os outros, predominou no Ocidente do século III até o XVII-XVIII, embora existam escolas contemporâneas que a mantenham (cf, na Internet). O que isso tem a ver com o presente? O problema central: quais as disciplinas efetivamente melhoram as pessoas?

Como se ensinava? Por meio da imitação, da mimesis, tanto no caso da formação para se tornar um oficial, artesão, profissional quanto na educação liberal. Pode-se dizer que os antigos eram escolanovistas ou progressivistas? Seria um anacronismo, o correto é inverter a comparação, pois o movimento da escola nova retomou, em parte, o que os humanistas dos séculos XVI e XVII faziam.

Nada disso aparece quando se opera com slogans como “formar o cidadão crítico e participativo”, pois há excesso de significados que cada qual se apropria como bem entende. Fiquemos com o termo crítico. O que significa? Na linguagem técnica da filosofia significa analisar. Logo, é preciso que as pessoas dominem os meios ou instrumentos de análise. Quais são eles? Os esquemas argumentativos codificados ao longo de 2.700 anos.

O que isto tem a ver com a internacionalização? Nada, caso seu significado seja manter relações sociais e acadêmicas com estrangeiros. Tudo, caso se entenda que o conhecimento confiável não tem pátria e nem está datado. Ainda voltarei a isto.

Classificação de periódicos (por Tarso Mazzotti)

Classificação de Periódicos

Por Tarso Mazzotti

O Qualis-Capes periódicos, revisto a cada três anos, põe no topo os internacionais (A1 e A2), segundo um conjunto de critérios que vão desde da diagramação até o número de autores não brasileiros. Quanto mais estrangeiros, maior a penetração fora do país. Verifique a lista dos periódicos para obter informações a respeito. Publicar em um periódico A1 é mais interessante do que em um B1, nacional com a classificação mais alta no item.

Por que a internacionalização é considerada superior? Por mostrar que o periódico tem uma audiência ampla,logo, é reconhecido por muitos. Essa medida é a mesma utilizada para identificar os oradores mais influentes: são os auditórios/públicos que dizem quais são as autoridades, quais os influentes. Pode-se saber muito acerca dos auditórios pelo exame do que dizem os oradores que eles  autorizam.

Para ser influente fora do país é preciso adequar-se aos múltiplos auditórios externos, logo seguir a suas agendas. Certamente em ciências da natureza é relativamente mais simples do que nas ciências do homem, pois as suas agendas são menos determinadas pelas contingências locais. Mesmo assim, há setores que mais facilmente podem aderir a agenda dos auditórios externos do que outras, para obter informações a respeito é suficiente ler o que muitos cientistas naturais dizem a respeito da exigência de internacionalização, geralmente quando discutem o Qualis-Capes.

O que se tem feito para atender a internacionalização de periódicos brasileiros da área de ciências dos homem? Além de solicitar artigos de pesquisadores estrangeiros, seja qual for a nacionalidade, tende-se a publicar artigos em inglês, a língua franca, de autores brasileiros.

Há outra métrica envolvida: a influência de um periódico é determinada pelo número de citações: mais artigos citados, maior a influência. No Google Acadêmico, para citar um de fácil acesso, pode-se verificar essa métrica, “fator de impacto”. para diversos periódicos.

No Google Acadêmico o fator de impacto utilizado é o h5, definido da seguinte maneira: índice de artigos publicados nos últimos cinco anos (daí o cinco no nome) que tenha sido citados h vezes cada, em que h é arbitrado por quem calcula.  Alguns exemplos, o periódico Nature apresentava h5 = 339 (mediana 507); os Cadernos de Saúde Pública: 40 (mediana 54); Educação & Sociedade: 22 (37); Interface comunicação, saúde e educação: 18 (25); Cadernos de Pesquisa (da Fundação Carlos Chagas e dedicada à Educação): 14 (27).

Os mais influentes são os das áreas médicas, e biológicas. Por quê? Pelo fato de os pesquisadores lerem mais artigos, geralmente curtos, para si manterem atualizados. Outras áreas, como a educação, não têm essa urgência e, ao que parece, nelas se prefere livros a artigos. Isto também pode ser verificado a partir das métricas. Usarei um exemplo pessoal, para não entrar na vida dos outros, duas das minhas publicações mais citadas são o capítulo “Estatuto de cientificidade da pedagogia” (41) e o livro em coautoria “Ciênci(s) da Educação” (51), o artigo mais citado é “Representação social de problema ambiental: uma contribuição para a educação ambiental” (34). O característico é o tempo de publicação: o livro foi publicado em 2000, o capítulo e o artigo em 1997. Uma cauda longa. Caso se possa considerar estas informações como indicadoras do característico da área, então o período de mensuração usual, cinco anos, não refletiria a influência de um pesquisador. Pode-se ter o I10 (índice 10), análogo ao h5, mas com prazo maior: 10 anos. Neste caso, considerando todos as minhas publicações (321) o I10 é o mesmo de h5: 9; considerando as publicadas após 2008, aqueles índices são, respectivamente, 9 e 3.

Medindo a qualidade dos cientistas (por Tarso Mazzotti)

Medindo a qualidade dos cientistas

Por Tarso Mazzotti

Como medir a produtividade de cientistas e programas de pós-graduação stricto senso? Simples: conte quantos artigos publicaram em períodos; classifique os periódicos segundo alguns critérios; faça o mesmo para livros e capítulos de livros; deixe de fora a participação em eventos. Pronto, terá uma medida da qualidade dos pesquisadores e programas (ditos cursos).

Essa métrica escalar, pois estabelece uma hierarquia, sustenta-se no argumento: a qualidade dos artigos é avaliada por pareceristas qualificados dos periódicos, idem dos conselhos das editoras de livros, logo quanto maior for a qualidade daqueles, maior a dos trabalhos publicados. O que impõe a necessidade de escalonar os periódicos e editoras e/ou livros: Qualis Periódicos e Qualis Livros da Capes, por exemplo.

Por que essa metrificação é necessária? Porque a CAPES avalia os programas de pós-graduação para os credenciar, mantê-los credenciados, hierarquizando-os e conferir um selo de qualidade. Tudo muito hígido e intersubjetivo. Certo? Em parte, pois as decisões acerca dos critérios obedecem políticas determinadas por um comitê predominantemente composto por pesquisadores vinculados às ciências da natureza e das matemáticas. Certamente estes pesquisadores operam concepções de ciência muito diversa dos demais, particularmente os das ciências do homem. Nada demais, não fosse por um pequeno detalhe: a maior nota é dada  aos pesquisadores e/ou programas que se mostrem internacionais, independente das características das áreas.

Certamente a ciência é transnacional. Logo, não é demasiado exigir a internacionalização dos programas de pós e nem dos pesquisadores. O problema é outro: para que haja diálogo (com estrangeiros ou não) é preciso que as partes sejam reconhecidas como iguais em conhecimento, do contrário tem-se uma relação análoga a de professor e aluno, assimétrica por natureza. Neste caso, a internacionalização implica subordinação do pesquisador/programa aos escolhidos para serem os orientadores que têm por mérito serem estrangeiros, mesmo que suas qualificações não sejam muito distantes das dos brasileiros. Ah! Então é preciso saber escolher os parceiros. Certamente, mas como o fazer se os pesquisadores/programas não tiveram contato suficiente para poder escolher? Uma via é participar de eventos internacionais, para isso precisa de financiamento, mas não se o obtém caso não tenha uma boa nota nas avaliações… Um raciocínio circular? Para ser internacional o pesquisador/programa precisa ser internacional desde sempre. Como? Deve ter-se doutorado no exterior, pois seu orientador abrirá os caminhos para outros contatos, bem como manteve relações com outros pesquisadores. Caso não tenha doutorado no exterior a saída é o pós-doutorado, que não é um título, mas estágio para ampliar tanto o domínio da língua estrangeira quanto saber das novidades e, caso tenha um projeto realizável no prazo da bolsa, produzir um ou alguns artigos, de preferência em co-autoria. Esse é o caminho para a internacionalização dos pesquisadores/programas de pós-graduação, pois viabiliza convênios que efetivamente serão implementados.

Pronto. Agora está tudo resolvido: internacionalizar é muito simples e resulta em uma boa classificação nas planilhas da CAPES, CNPq, nas demais agências e na instituição em que trabalha.

Não perca tempo, torne-se fluente em inglês, pois é a língua franca de nosso tempo. Encontre um grupo no exterior, adapte-se à agenda do grupo, faça um projeto de pós-doutorado (ou de doutorado), solicite sua bolsa. Assim estará começando sua carreira internacional que lhe dará boas notas na avaliação.

Em outro post falarei da internacionalização dos periódicos brasileiros da área Educação.

A seguir: posts de autor convidado

Serão publicados aqui, em breve, três posts do nosso colega do PPGE/UNESA, o Prof. Tarso Mazzotti, da Linha de Pesquisas RSPE. O primeiro focaliza a questão da avaliação de qualidade de cientistas; o segundo explora uma pontuação feita no primeiro e aborda a questão da classificação de periódicos (científicos); por fim, o último texto discute a internacionalização da pesquisa. Trata-se, portanto, de três assuntos inter-relacionados e bastante importantes para todos nós que conduzimos pesquisa. Há, também, questões relativas ao “papel” das TIC como contigência, mas os textos não exploram essa possibilidade (seria um debate bastante interessante).

A seguir!

A diferença que faz diferença: informação e tempo

Em um post anterior, comentei sobre o evento The Difference that Makes a Difference, organizado pelo Society and Information Research Group da Open University do Reino Unido. Pois bem: estão agora disponíveis abertamente os webcasts das palestras e discussões, através do site do auditório principal da Open (infelizmente, muitas das palestras que acontecem lá estão disponíveis apenas internamente, mas algumas estão abertas).

Aproveito para compartilhar algumas das anotações que fiz da fala de John Monk, a primeira da sessão Informação e Tempo.

Em resumo: explorando diferentes conceituações de “tempo” (em particular, de Aristóteles, Heidegger e Wittgenstein) e exemplos de artefatos tecnológicos específicos (ele raramente fala sem exemplos), John montou um argumento sugerindo a necessidade de diferenciar-se entre “causalidade” e “temporalidade” (sugerindo, para um certo choque dos físicos na platéia que depois fizeram críticas interessantes à proposta do palestrante, que “tempo” não é uma dimensão primária da Física).

– O argumento problematizou a noção de “tempo” como mais um “troço” construído discursivamente, implicando, assim, metáforas específicas a culturas, e sugerindo, no entanto, relações com/para “algo” que se mostra intangível e indescritível.

– Propôs poesia e música como as duas formas artísticas “superiores” na expressão de temporalidade.

– A notação musical explora uma analogia entre “tempo” e “espaço”, e essa analogia é constitutiva das disciplinas científicas e administrativas, onde gráficos representam “tempo” em um eixo linear (noto, porém, que ele não mencionou uma questão essencial da filosofia da música, que é exatamente a relação entre “música” e “sua notação”, e há algo aí não somente fascinante mas, também, ultra relevante).

– Os ponteiros do relógio analógico exibem “tempo” como movimento – traz, então, o pensamento de Lewis Mumford (que argumentou que o relógio, não o motor a vapor, é que foi a “grande invenção” da revolução industrial), segundo o qual “tempo” é constitutivo do projeto da modernidade.

– Com isso, o “tempo” se tornou destacado da experiência, um recurso a ser medido e gerido (contrastando com a visão de Heidegger), e “tempo” e “dinheiro” foram ficando conectados com a crescente comodificação de tecnologias baseadas no relógio.

– Sugeriu que a ciência não trata, de fato, de “causas e efeitos”, mas sim de “relações entre quantidades”, e, citando Wittgenstein, disse que causalidade não pode ser calculada, pois estão em jogo, sempre, crenças.

– Concluiu dizendo que precisamos ter cautela ao construir “narrativas de causalidade”, o que é complicado dado o nosso hábito de “pensar” sobre “tempo” como “espaço”.

O que é tecnologia?

Quando estávamos produzindo nosso e-book, tivemos a seguinte discussão: “Educação e Tecnologia” ou “Educação e Tecnologias” ? Enfim, concordamos com o singular (dos bastidores, explico a “motivação”: estávamos sem muito tempo para aprofundar a discussão naquele momento…)

Foi uma decisão democrática, mas minha preferência era, de fato, pela forma singular do termo, em parte porque estava considerando a questão que, agora, vira título de post, e que constitui, para mim, um outro debate importante (além de bem interessante). Em particular, naquele momento estava meditando sobre o texto “The Language of Cybersouls”, de John Monk, que está disponível aqui. O texto explora, por meio da articulação de várias temáticas e exemplos de artefatos concretos, o mito de Prometeu (Prometheus), em uma discussão que se apropria da noção de language-game de Wittgenstein. Ofereço, abaixo, uma tradução (apressada) da conclusão, enquanto espero o “sinal verde” do autor para terminar e divulgar uma tradução do texto completo em português.

A tecnologia representa um conjunto de instituições sobrepostas embarcando em missões políticas. Dentro de cada iniciativa espera-se ver acordos que estabelecem padrões de julgamento e alocação de papéis. A iniciativa terá, ao menos, a aparência de um objetivo externo, e grande parte da atividade consistirá de deliberação sobre como se atingir fins antecipados. A deliberação será apresentada como racional e será formalizada até certo grau, ainda que aqueles externos à iniciativa venham a questionar sua racionalidade, em parte porque as instituições e iniciativas irão negligenciar critérios, práticas consagradas e objetos valorizados por outros grupos.

De forma característica, essas iniciativas tecnológicas não restringem seus dispositivos políticos a palavras, mas, sim, adicionam bens materiais a seu vocabulário.

Para um indivíduo, tecnologia é uma fé em um amálgama de habilidades e artefatos que coalescem dentro de um conjunto de jogos da tecnologia. Esse espetáculo da tecnologia promove práticas tribais, orquestra comportamentos idiosincráticos e sustenta instituições.

Os jogos da tecnologia que jogamos emprestam sentido a quem somos, às contingências que enfrentamos e como respondemos a elas. Jogos da tecnologia, portanto, constituem a comunidade.

Em meio a isso, artefatos não são meios que adquirem sua forma de acordo com as necessidades humanas, mas, sim, participantes ativos nos jogos que estão gerando e destruindo esperanças.

A tecnologia não é um meio.

Como a lenda de Prometeu ilustra, a tecnologia é integral a ser humano.