Educação Superior

Retrato da EaD no Brasil pelo MEC

Começou hoje o Congresso Internacional ABED de Educação a Distância (22º CIAED) em Águas de Lindóia (SP) e cá estou para acompanhar e participar da mesa Redes Sociais e Educação com a Profª Vani Kenski (Fe/USP) e José Erigleidson da Silva (PUC-SP), nesta terça (20/9).

Hoje à tarde, fui conferir o Encontro para diálogo entre a comunidade brasileira de EaD e o Ministério da Educação, em que participaram alguns representantes do MEC.

Quero destacar as intervenções oportunas do presidente da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (CNE) no que diz respeito à expansão da EaD no País. Luiz Roberto Curi chama atenção para o caráter da expansão, chamando a sociedade para a seguinte questão :”o que se quer da expansão da EaD?”. Segundo Curi, a expansão da EaD até hoje não conseguiu alterar:

  • a quantidade de vagas por região: a oferta é maior em locais que já possuem muitas instituições oferecendo Educação Superior presencial – disparado o Sudeste.
  • a concentração de cursos que tradicionalmente são ofertados pela modalidade (pedagogia, administração, direito, ciências contábeis).

Um dos desafios para a EaD é dialogar com o Plano Nacional de Educação para que sejam dobradas o número de matrículas de jovens de 18 a 24 anos na Educação Superior. “O processo de expansão não pode ser desvinculado das políticas públicas” e, mesmo, das políticas que as instituições privadas possuem – elas também devem considerar a desproporcionalidade da distribuição da EaD no país, segundo Curi. Diante de uma platéia onde estavam muitos representantes de instituições de ensino, o representante do CNE chamou atenção das instituições (privadas e públicas) para apresentarem propostas que “atendam a necessidade da sociedade brasileira e não de um ator ou grupo”. Os dados são alarmantes: 66% dos municípios brasileiros não tem Educação Superior. “É preciso discutir expansão da EaD diante das necessidades do país”, disse.

Antes de Curi, Joana D’Arc Ribeiro, da Secretaria de Educação Superior do MEC, apresentou slides que ajudam a ter um retrato da Educação Superior a distância no país. Algumas fotos da apresentação não estão muito boas, mas achei que vale compartilhar. Chamo atenção para a listagem da regulamentação da EaD, incluindo uma nova Resolução muito comentada no evento (Nº1/2016).

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“Inovação” e práticas docentes no ES – defesa de tese

20151209_102126Fechando o semestre, tivemos mais uma instigante defesa na TICPE. Focalizada em questões relativas ao uso de tecnologias na docência em nível superior, Rejane Cunha Freitas defendeu a tese intitulada Práticas docentes no Ensino Superior e as Tecnologias de Informação e Comunicação: um estudo de caso.

Tomando como campo uma instituição de ES privada, Rejane conduziu um estudo de caso fundamentado em literatura de vertente crítica da Tecnologia Educacional, com o objetivo geral de “explorar as concepções e práticas de ensino com as TIC no ES”. Combinando técnicas quantitativas (para identificação de um perfil geral dos docentes da instituição) e qualitativas (entrevistas semi-estruturadas e observação participante), a pesquisa analisou concepções dos professores acerca da formação e da prática docente no ES.

Em especial, a tese analisa a importantíssima temática da “inovação” com bastante sensatez: por um lado, questiona formas maniqueístas de pensar, e, por outro, “De modo a evitar o processo de culpabilização dos docentes (…) considera as muitas dificuldades próprias da profissão, bem como possíveis especificidades do contexto analisado.”

A banca contou com a participação dos Profs. Laélia Moreira e Márcio Lemgruber, do PPGE/UNESA, Sônia Mendes, da UERJ/FEBF e Alexandre Rosado, do INES/DESU. Rejane recebeu elogios unânimes da banca em relação ao seu cuidadoso detalhamento da metodologia, que inclui uma discussão sobre questões de reflexividade na pesquisa, à sensibilidade e cuidado que demonstrou no tratamento dos dados, criteriosamente descritos e analisados, bem como ao teor geral da discussão teórica e sua articulação com os dados.

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Da esquerda para a direita: Alexandre, Sônia, Laélia, Rejane, Giselle & Márcio

Assim como o trabalho de Regina Almeida, focalizado em questões relativas ao letramento informacional e defendido há algumas semanas atrás, a tese de Rejane será disponibilizada on-line em breve; deixo, então, por hora, o resumo:

Este estudo parte de um questionamento acerca dos discursos por mudança no Ensino Superior (ES). Especificamente, discute-se a natureza das alegações que professam uma revolução no ES, que são sustentadas pela defesa das inovações e pela crença de que as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) favorecem um processo de aprendizagem sem esforço, para atuação profissional em um futuro incerto. O estudo baseia-se em uma investigação que teve como objetivo geral explorar as concepções e práticas de ensino com as TIC no ES. As seguintes questões foram respondidas por meio de um estudo de caso conduzido em uma instituição de ES privada utilizando métodos mistos: (a) Quais influências, formações e experiências dos professores contribuem na caracterização que fazem de suas próprias práticas de ensino?; (b) De que formas os docentes (re)pensam a integração de recursos das TIC em suas práticas de ensino?; (c) Quais as concepções, atitudes e dificuldades dos professores em relação ao uso das TIC em sala de aula?; (d) Quais concepções sobre “inovação” emergem do campo na visão dos professores?. Os dados coletados em 70 questionários foram tratados estatisticamente, permitindo a identificação de um perfil geral dos docentes da instituição. Temáticas específicas foram esmiuçadas com base em 11 entrevistas semiestruturadas e observação participante conduzida entre 2013 e 2015, bem como uma intervenção pontual que tomou a forma de um minicurso de 6 horas oferecido em fevereiro de 2015. Transcrições e anotações de campo foram submetidas a uma análise de conteúdo temática. A fundamentação teórica adotada inclui literatura acerca do ES e textos críticos da Tecnologia Educacional, em particular, de Raquel Goulart Barreto e Neil Selwyn. Os achados indicam que, na melhor das hipóteses, tem havido um impacto bem modesto dessas tecnologias nas estratégias de ensino comumente utilizadas, e a integração de novos artefatos tende a ser feita de modo a possibilitar a continuidade de práticas pedagógicas já estabelecidas. Apesar das falas dos professores não indicarem, explicitamente, forte resistência ao uso das TIC, há indícios de resistência à mudança pedagógica, em parte explicáveis por contingências tais como falta de tempo e, talvez, falta de uma formação específica para a docência no ES que desenvolva sujeitos críticos e reflexivos. Por outro lado, as falas representam ações de resistência pontuais aos discursos corporativos e dispositivos técnicos a eles associados, que impingem diretamente na autonomia profissional dos docentes, sugerindo sua enorme adaptabilidade e comprometimento com seus alunos, seu trabalho e com a própria instituição. Assim, o trabalho contribui para preencher a enorme lacuna referente a questões mais sutis acerca da relação entre as TIC e as práticas docentes no ES, reiterando a necessidade de estudos empíricos que possam, com base na contingência, desafiar os discursos generalistas e essencialmente doutrinários que predominam na área, discursos marcados por um maniqueísmo que opõe, de maneira simplista, “resistência” a “adesão” às TIC.

Rejane preparou uma bela apresentação em Prezi, que você pode acessar clicando aqui.

Por fim, registro, mais uma vez, meus parabéns à Rejane, pela qualidade do seu trabalho e por sua garra, tenacidade e profissionalismo, que a possibilitaram seguir adiante, mesmo em momentos difíceis!

 

e-Book Educação e tecnologia: parcerias. Volume 4 – publicado!

Capa Educação e Tecnologias Parcerias vol 4 - proposta 6.5Anunciamos, com muita alegria, a publicação de nosso e-book anual, Educação e tecnologia: parcerias. Volume 4. A coletânea deste ano inclui 9 capítulos que, utilizando uma variedade de abordagens teórico-metodológicas, focalizam temáticas “de ponta” no universo de interlace entre as tecnologias, principalmente as digitais, e a educação.

Seguimos o mesmo processo estabelecido na preparação do volume anterior: um esquema de avaliação cega por pares fundamentando a seleção de trabalhos dentre as propostas enviadas em resposta à nossa chamada aberta. O Prof. Alexandre Rosado foi novamente responsável belo projeto gráfico e editoração cuidadosa do material, que, mais uma vez, inclui uma exposição de novos trabalhos do artista visual João Lin. Atualizamos o estilo da capa, que, neste ano, foi criada também pelo Prof. Alexandre utilizando uma imagem de um mosaico abstrato criado pela mosaicista Eunice Ferreira.

Algumas palavras de nossa apresentação:

A preparação de nosso – agora consolidado – e-book anual é um grande prazer para nós da linha TICPE. Nosso trabalho é artesanal: conduzimos todo o processo nós mesmos, com muito entusiasmo, em um grande mosaico de pesquisadores, orientandos, seus textos e, também, artistas e suas encantadoras obras de arte. Cuidamos desde a seleção dos textos, revisão técnica e diagramação até a disponibilização e disseminação via redes digitais, o que atesta nosso comprometimento com a pesquisa e, acima de tudo, nosso profundo respeito pelo diálogo e cooperação.

Em parte, são as próprias TIC, instrumentos de alta tecnologia, que possibilitam esta empreitada artesanal: das ferramentas livremente disponíveis que utilizamos às plataformas de redes sociais que apoiam nossas redes de contatos. No entanto, mais importante do que artefatos, julgamos que são, de fato, o talento, as habilidades e o comprometimento de todos que contribuem para o processo, incluindo nossos pareceristas e Conselho Científico, o que nos possibilita levar às suas mãos, anualmente, esta coletânea.

O volume inclui, também, uma homenagem personalíssima de Luis Zorraquino, companheiro de nossa saudosa Estrella Bohadana, a quem dedicamos a obra:

A produção deste volume 4 (…) foi marcada pela perda irreparável que sofremos em maio deste ano: a de nossa colega, companheira de aventuras intelectuais e amiga, Estrella Bohadana. Estrella era a única componente original do grupo TICPE, criado em 2000, e uma das responsáveis pela idealização e concretização do volume que deu origem à série. (…)

Agradecemos ao Luis por compartilhar sua perspectiva tão pessoal conosco e com os nossos leitores, e dedicamos o Educação e tecnologia: parcerias. Volume 4 à Estrella.

Agradecemos a todos que contribuíram das mais diversas formas, em particular, os autores, pareceristas e membros do Conselho Científico. Somos, também, muito gratos ao João por sua enorme generosidade em compartilhar, primeiramente conosco e, obviamente, com nossos leitores, seus delicados trabalhos.

Clique aqui para baixar o volume completo.

Clique aqui para baixar o cartaz de divulgação do trabalho (com QR Code).

Clique aqui para acessar a página com links para todos os volumes da série.

 

TICPE no 11o SENAED da ABED

logotipoDurante esta semana, a TICPE irá participar do 11o Seminário Nacional de Educação a Distância, SENAED, promovido pela Associação Brasileira de Educação a Distância, ABED. O evento começa amanhã, dia 9 de junho, às 9:30, com uma Sessão Plenária que deverá contar com a presença de Renato Janine, Ministro da Educação, seguida de uma palestra do Prof. Ronaldo Mota, Reitor da UNESA.

Durante a tarde, serão realizadas diversas mesas paralelas, e estarei compondo a Mesa 1, intitulada Qualidade na Educação a Distância: reflexão sobre modelos, concepções e contextos, juntamente com os Professores Márcio Lemgruber, da TICPE, e Alexandre Rosado, nosso colaborador do INES. Nosso plano é discutir a questão da “qualidade” de forma contextualizada, ou seja, sem quaisquer pretensões a propor “definições” ou “recomendações”, mas, sim, oferecendo questionamentos pertinentes com base em nossas pesquisas e experiências na Open University do Reino Unido (eu), Projeto Veredas na UFJF (Márcio) e INES (Alexandre).

O evento será realizado no campus Menezes Cortes da UNESA.

Clique aqui para acessar o site do evento.

Clique aqui para visualizar a programação completa do evento.

Abertura de processo de seleção de docente para a TICPE

Está aberto o processo de seleção de docente para a Linha TICPE do PPGE/UNESA. As inscrições estarão abertas até dia 15 de julho – em breve, o edital será divulgado, também, no site institucional, mas já estamos abertos para receber contatos e documentação dos interessados.

Veja AQUI o edital, aproveitando a visita para conhecer, também, nosso histórico e proposta, nossas disciplinas, nossos projetos e nossas produções.

Tecnologia, educação e Gould: “mind the bullshit” (divagações de uma tarde de domingo)

Já faz algum tempo que este blog tem sido usado mais como quadro de avisos do que da forma que originalmente planejáramos: um espaço de compartilhamento e discussão de questões interessantes e relevantes. Obviamente, tempo (falta de?) é uma questão (explicação) fundamental, mas, passou-me hoje mais cedo pela newsfeed do Facebook uma postagem sobre “ensino de música a distância” que me deixou com uma enorme necessidade de encontrar formas de redirecionar os pensamentos. Fiquei a imaginar, em múltiplas e coloridas distopias, como poderia ter sido a formação de Glenn Gould com base em trocas de pfd’s e mp3’s e encontros via Skype... (pensei não somente na formação do instrumentista, mas, também, na formação do “mito Gould”, incluindo a criação de algumas veneradas gravações feitas por ele). Comecei, então, a esboçar este post, enquanto fazia anotações que podem vir (talvez?) a se tornar uma resenha.

Obviamente, não sou avessa a “inovações”, e não é a dita questão da “mediação tecnológica” que me preocupa (se bem que, realmente, há problemas bem práticos – por exemplo, banda?), especificamente, mas, sim, me parece estranha a ideia de que se pode “ensinar música” com os artefatos mencionados. De fato, estou me referindo, em particular, à formação do instrumentista, que também requer processos de disciplina do corpo. A ideia me parece, simplesmente, ludicrous (não consigo pensar em uma boa palavra em português no momento, perdoem-me). Resolvi buscar alguma outra coisa para me ocupar os pensamentos, e passei a refletir sobre o último número da revista Learning, Media and Technologydedicado a discussões críticas acerca da Educational Technology (para nós, seria TIC na Educação, não Tecnologia Educacional, exatamente – mas isso é outro assunto!).

Em particular, foi o Editorial de Neil Selwyn que me veio à mente: “Tomando cuidado com a nossa linguagem: porque a área da tecnologia na educação está cheia de baboseiras… e o que pode ser feito a respeito disso”. No original, o autor usa o termo coloquial bullshit (não exatamente anátema, mas uma palavra chula), traduzido no Google Translate como “treta”, que não usamos comumente no Brasil (que eu saiba – disclaimer para que meus alunos depois não reclamem que estou generalizando sem fundamentação!) e que, em Portugal, tem conotações bem diferentes. Que seja como for – com essas considerações, consegui, divertindo-me, (mais ou menos) neutralizar os efeitos desagradáveis (ou seja, uma grande irritação) que me causaram as imagens de Gould, ainda criança, tentando comunicar-se por chat com seu tutor instrumental (ou mesmo com seu engenheiro de som) acerca da execução de alguma passagem das Variações Goldberg

O texto de Selwyn é mais uma pérola de um autor que oferece em seus trabalhos uma combinação de aprofundamento teórico com elementos de linguagem coloquial (incluindo alguns neologismos, por vezes, até engraçados), tornando-os (penso eu) mais acessíveis do que alguns dos textos de cunho mais filosófico que temos utilizado na TICPE. Infelizmente, conheço apenas dois artigos do autor que foram traduzidos para o nosso idioma: O uso das TIC na educação e promoção de inclusão social: uma perspectiva crítica do Reino Unido (publicado na revista Educação e Sociedade, 2008) e Em defesa da diferença digital: uma abordagem crítica sobre os desafios da Web 2.0 (não sei detalhes sobre essa tradução, mas está disponível no espaço do autor no academia.edu, com data de 2011). Selwyn tem, também, vários livros excelentes, mas, que eu saiba, apenas Telling Tales on Technology: qualitative studies of technology and education (2002) está livremente disponível.

Adotando uma perspectiva discursivo-crítica à área, Selwyn, em essência, defende a necessidade de maior atenção a questões relativas à linguagem. O texto constitui uma crítica veemente, ainda que marcada por um certo senso de humor (irônico), à retórica utilizada na esmagadora maioria das discussões sobre os usos das TIC na educação. Trazendo elementos da discussão de Harry Frankfurt em On Bullshit (2005 – veja, aqui, um artigo relevante), Selwyn sugere, simplesmente, que “muito do que se diz sobre educação e tecnologia pode ser classificado como bullshit“. Na construção de seu argumento, o autor critica as hipérboles (exageros), a ausência de fundamentação teórico-reflexiva (as visões excessivamente otimistas ou prometeicas da tecnologia) e a frequente falta de apoio na empiria, que contribuem para a naturalização e universalização de ideias que, de fato, mal escondem posicionamentos ideológicos passíveis de duras críticas.

Dessa forma, defende a noção de que a terminologia da área tende a construir formas específicas de pensar a respeito da presença das TIC na educação. Um exemplo que acho particularmente interessante, dentre outros mencionados, é o uso frequente de termos relativos a “aprendizagem” nos rótulos da EdTech – “Ambiente Virtual de Aprendizagem”, “Aprendizagem conectada”, “Sistemas inteligentes de tutoria”. Tais termos, segundo Selwyn, “implicam um propósito inequívoco para as tecnologias digitais na educação, ou seja, servir como uma ferramenta na busca da aprendizagem” com total descaso pela contingência (algo que muito me incomoda na literatura do gênero “futurologia” – no post de ontem cheguei a mencionar a questão do uso de linguagem alarmista e cataclísmica na defesa dos “discursos da educação quebrada“).

Traçando um paralelo com a discussão da noção de “esquecimento organizado” de Henry Giroux em The violence of organized forgetting (2014), que focaliza questões estadunidenses, Selwyn sugere que:

as formas nas quais a tecnologia digital é discutida nos círculos educacionais certamente racionalizam aspectos superficiais, efêmeros e, frequentemente, banais da temática às custas de um engajamento continuado com suas políticas confusas. Há, também, linguagem que rotineiramente normaliza questões de opressão, desigualdade e injustiça. Há pouco – se é que há – reconhecimento de diferenças de classe, etnia, gênero, e outras atribuições sociais. Da mesma forma, há linguagem que oferece compreensão parca da economia política de um mercado de tecnologia educacional avaliado em mais de 5 trilhões de dólares. Quando abordada de qualquer uma dessas perspectivas, a área das TIC na educação pode ser criticada, de modo justificado, como um sítio de esquecimento organizado.

No original:

the ways that digital technology is talked about within educational circles certainly extenuate superficial, ephemeral and often banal aspects of the topic at the expense of any sustained engagement with its messy politics. This is also language that routinely normalizes matters of oppression, inequality and injustice. There is little if any acknowledgement of differences of class, race, gender, disability or other social ascription. Similarly, this is language that offers scant insight into the political economy of an education technology marketplace reckoned to be worth in excess of $5 trillion. When seen from any of these perspectives, then education and technology can be justifiably criticized as a site of organized forgetting.

Os outros textos do mesmo número da revista são igualmente veementes em suas respectivas críticas a tópicos, temáticas e discursos em torno de rótulos específicos da EdTech. Em particular, recomendo o artigo de Lesley Gourlay, “Educação aberta como um ‘heterotopia do desejo'”. Neste texto, a crítica parte das obras de Latour e de Foucault, tendo a “Educação Aberta” como tópico (alvo!) e vindo ao encontro de algumas das minhas reflexões sobre mais este rótulo da EdTech, que iniciei a partir da publicação deste trabalho. Veja o resumo (em tradução que precisaria ser muito melhorada):

O movimento da “abertura” na educação tem se posicionado como inerentemente democrático, radical, igualitário e crítico em relação aos poderosos sentinelas (gatekeepers) da aprendizagem. Ao passo que “abertura” é, frequentemente, posicionada como uma crítica, defenderei que os discursos correntes – ainda que pareçam opor as operações de poder em larga escala – de fato reforçam uma fantasia de um aparato institucional panóptico e todo-poderoso. O sujeito humano é idealizado como capaz de gerar conhecimento de ordem superior sem recurso à expertise, ao cânone do conhecimento ou ao desenvolvimento apoiado (scaffolding). Isso destaca uma interente contradição entre esse movimento e a teoria educacional crítica, que se opõe a narrativas de futuros utópicos possíveis oferecendo contrapontos teóricos e empiria que revelam diversidade e complexidade, e resistindo a tentativas de definição, tipologia e imutabilidade. O argumento será substanciado com referência a uma estudo qualitativo longitudinal multimodal conduzido ao longo de um ano com estudantes acerca de seu envolvimento cotidiano com as tecnologias na Educação Superior, o qual foi combinado com um estudo mais curto que focalizou o engajamento de pessoal acadêmico. Partindo de perspectivas sociomateriais, concluirei que as reivindicações de “radicalismo” do movimento da “abertura” em educação pode, de fato, servir para reforçar e não desafiar o pensamento utópico, fantasias do humano, categorias sociais monolíticas, imutabilidade e poder, e, assim, podem indicar uma ´heterotopia do desejo´.

Em tempo: a revista é excelente, ainda que não ofereça acesso livre (e, ironicamente, não tenha Qualis/CAPES), então recomendo a leitura (avisando, no entanto, que a leitura demanda um conhecimento, no mínimo, razoável, do inglês, pois os textos tendem a ser relativamente complexos). Lembro que, na falta de acesso à publicação, uma alternativa muito boa é entrar em contato diretamente com o(s) autor(es) e pedir uma preprint (cópia não formatada ou versão preliminar da publicação, que é o tipo de texto sendo compartilhado em repositórios institucionais e/ou em espaços pessoais dos autores na Web).

Atualização em 31/05/15 🙂 : descobri, durante a semana que se passou desde que publiquei esse post, que “treta” está, sim, no vocabulário nacional. Segundo minha filha (que tem 17 anos), significa “confusão” – e acompanhando os eventos da semana, vi a palavra em dois ou três postagens sobre a “treta” que se passou na UERJ. As palavras estão, realmente, ao vento – a linguagem é viva, se transforma, e o dicionário pode, no máximo, correr atrás (ou olhar para trás?), em busca de significados e definições que serão sempre, na melhor da hipótese, localizadas e provisórias…

Qualidade na Educação Superior – reflexões sobre um trabalho de tradução

Por Giselle Ferreira e Laélia Moreira

Este post reúne alguns comentários relativos ao nosso trabalho de tradução da revisão de literatura sobre qualidade na Educação Superior conduzida por Lee Harvey (Membro da International Network for Quality Assurance Agencies in Higher Education, INQQAHE, e Professor Emérito da Copenhagen Business School, Dinamarca) e James Williams (Professor na Escola de Educação da Birmingham City University, Reino Unido), publicada em 2010 na revista Quality in Higher Education (HARVEY; WILLIAMS, 2010a; 2010b). A tradução, em si, constitui um produto do projeto Qualidade no Ensino Superior a Distância para a Formação de Professores: um mapeamento crítico (MOREIRA; FERREIRA, 2012), e foi desenvolvida, inicialmente, com o objetivo de viabilizar a utilização do texto com nossos alunos de pós-graduação que contribuem para a execução do projeto. No entanto, dada a riqueza do trabalho, bem como a importância do debate correspondente no Brasil, com a permissão e o aval dos autores do texto original, decidimos refinar a versão inicial e submetê-la à apreciação da revista Educação e Cultura Contemporânea para uma possível publicação.

É com grande satisfação que podemos, agora, divulgar a tradução, publicada em duas partes, como o texto original, nos dois números mais recentes da REEDUC, acessíveis através dos links a seguir: Parte I e Parte II.

A revisão de Harvey e Williams oferece uma análise da área de garantia de qualidade na Educação Superior (ES), baseada nas contribuições publicadas na própria Quality in Higher Education, uma das revistas mais conceituadas na área da Educação Superior (ES). Assim, ainda que não se trate de uma revisão exaustiva da literatura, por demais extensa não somente no idioma inglês, mas, também, no Brasil, constitui uma amostra significativa dos desenvolvimentos ocorridos, na área, de 1995 a 2010, das temáticas centrais às discussões sobre qualidade conduzidas ainda hoje, oferecendo, desse modo, uma visão geral e um mapeamento possível da área. Nosso propósito, nessa breve introdução, é apresentar algumas informações complementares que possam vir a ser úteis a outros pesquisadores e estudantes, principalmente àqueles que estejam iniciando seus estudos na área.

De modo a explicitar nossa ideia de que o texto pode ser visto como um mapa da área, elaboramos alguns esquemas gráficos que representam as temáticas abordadas e a presença de diferentes países na discussão internacional, incluindo o Brasil. As figuras 1 e 2 apresentam as temáticas discutidas nas Partes I e II do texto, respectivamente, e a figura 3 mostra as regiões e países representados nos estudos incluídos na análise. A presença de trabalhos desenvolvidos no Brasil na área de garantia de qualidade é pequena, na revisão, o que, segundo nossas investigações, não reflete a extensão da pesquisa e da literatura acadêmica produzida sobre o assunto no país.

Vale ressaltar que a expansão da presença das TIC na Educação não é tratada de forma sistemática nos trabalhos incluídos na revisão, mas isso não significa que não se trate de contingência fundamental às transformações contemporâneas da ES e, assim, às várias temáticas abordadas na revisão.

Temáticas Parte I

Figura 1: Mapa das temáticas tratadas na Parte I da revisão (HARVEY; WILLIAMS, 2010a) 

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Temáticas Parte II

Figura 2: Mapa das temáticas tratadas na Parte II da revisão (HARVEY; WILLIAMS, 2010b)

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Sistemas Nacionais

Figura 3: Mapa das regiões e países representados na revisão

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Não é necessário conduzir-se uma análise aprofundada dos textos para que se identifique a predominância de discursos empresariais e de gestão em muitos dos artigos analisados por Harvey e Williams. Alguns desses trabalhos oferecem pistas relativas à gradual adoção de tais discursos na Educação, sugerindo uma clara relação com os processos de mercantilização da Educação e corporativização da Educação Superior.

Esses processos tomam formas variadas em contextos diferentes, em correlação com contingências tais como o sistema de financiamento e normatização da ES, bem como as tradições e culturas acadêmicas locais. Parece tratar-se de uma área interdisciplinar desconfortavelmente situada entre a Educação e a Gestão, conforme os trabalhos examinados na Parte II, em particular, atestam.

Essa Parte evidencia, especialmente, no que se refere à avaliação e garantia de qualidade, as fortes tensões entre agendas de uma ES que funcione top-down (da gestão para o corpo acadêmico) ou bottom-up (do corpo acadêmico para níveis gradativamente mais numerosos de gestão). Esse é o contexto geral internacional, particularmente na União Europeia, onde a movimentação na direção da unificação das qualificações de instituições de ES nos países integrantes imposta pelo Tratado de Bolonha, bem como as múltiplas transformações e reconfigurações dos sistemas nacionais de financiamento da ES, principalmente no Reino Unido, estão gradativamente fortalecendo modos de gestão educacional top-down.

Ao longo da tradução, lançamos mão de notas de rodapé (N.T.) para incluir elucidações e detalhes sobre especificidades dos sistemas educacionais de outros países, principalmente do Reino Unido e alguns outros países da Europa, bem como explicações sobre idiossincrasias dos termos em inglês utilizados na área. Um dos termos recorrentes é o substantivo academic, que traduzimos como “acadêmico”, apesar das diferenças entre conotações nos dois idiomas. O academic inglês é, primordialmente, um pesquisador-professor, que, via de regra, trabalha em uma única universidade. Isso configura uma situação bastante distinta daquela vivida pelo professor da Educação Superior no Brasil.

Em outros casos, optamos por manter o termo em seu original, para manter a consistência com a literatura nacional ou evitar expressões muito longas (por exemplo, stakeholder, benchmarking e compliance, ou seja, partes interessadas, criação de termos de referência e cumprimento das normas, respectivamente), ou por tratar-se de uma expressão sem equivalente satisfatório em português, como value for money, por exemplo, ou seja, a ideia de algo que tem um custo aceitável e é eficaz ou admissível, em comparação a alternativas talvez melhores, porém mais onerosas.

Tentamos também indicar variações linguísticas entre os sistemas nacionais. Um exemplo é o termo e-learning, cujo uso na Europa é muito mais abrangente do que no Brasil, e manter, ao máximo, alguma fidelidade a termos e expressões idiossincráticas de autores, como grassroots academics, trust killers e sense of coherence, dentre outras. Adicionalmente, tendo em vista um público que talvez viesse a incluir iniciantes ou não-especialistas nas linguagens da gestão, oferecemos também algumas explicações e referências adicionais complementares, tais como, “organizações que aprendem” e “comunidades de prática”.

A situação no Brasil é, naturalmente, diferente da maior parte dos contextos estudados nos textos incluídos na revisão de Harvey e Williams, mas reflexos, no país, da internacionalização da ES são claros, e as controvérsias em torno da Educação a Distância, em particular, tornam essencial a questão da avaliação da qualidade.

Muitos dos textos analisados dedicam-se à questão de definir “qualidade”, e os próprios autores da revisão são referências básicas na temática, citados com frequência por autores brasileiros. Trata-se de uma questão recorrente e fundamental nos debates na área, mas que pode levar a uma certa esterilidade. Ao que indica a revisão de numerosos trabalhos a ela dedicados, não parece ser solucionável sem relação a especificidades contextuais, e sem considerar-se o que pode ser descrito como um “choque cultural” entre a cultura acadêmica mais “tradicional” e as perspectivas empresariais que sustentam grande parte da discussão sobre garantia de qualidade.

Harvey (2010) é bem explícito em seu julgamento do impacto da garantia de qualidade, afirmando que essa não apenas simplesmente falhou em não ter concretizado uma aproximação entre essas culturas, mas, também, fomentou a falta de confiança entre as partes interessadas (docentes, alunos, funcionários administrativos e gestores) evidenciada em parte das pesquisas analisadas na revisão. A percepção de que os processos de avaliação de qualidade são conduzidos ritualisticamente, de acordo com scripts e caracterizados por certa teatralidade, como uma forma de adaptação a demandas externas de garantia de qualidade, conforme sugerido por Barrow (1999), não é consistente com a noção de que tais processos fomentam melhoria e transformação.

Os autores finalizam sua análise indagando se a qualidade da ES poderia ter melhorado sem a instituição de sistemas de garantia de qualidade. No Brasil, nos parece que seria um capricho lançar tal questão de forma simplesmente retórica, quando o foco em “qualidade” talvez seja a única saída do dilema público-privado que caracteriza muitos dos debates sobre a ES.

Clique aqui para acessar a Parte I da tradução.

Clique aqui para acessar a Parte II da tradução.

Referências

BARROW, M. Quality-management systems and dramaturgical compliance, Quality in Higher Education, v. 5, n. 1, p. 27–36, 1999.

MOREIRA, L. C. P.; FERREIRA, G. M. S. Qualidade no Ensino Superior a Distância para a Formação de Professores: um mapeamento crítico. Projeto de Pesquisa. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estácio de Sá. Disponível em: < https://ticpe.wordpress.com/pesquisa/#Discursos >. Acesso em: 15 mar. 2014.

HARVEY, L. Twenty years of trying to make sense of quality assurance: the misalignment of quality assurance with institutional quality frameworks and quality culture. In: 5th European Quality Assurance Forum. Building Bridges: Making sense of QA in European, national and institutional contexts. Disponível em: < http://www.eua.be/Libraries/EQAF_2010/WGSII_7_Papers_Harvey.sflb.ashx>. Acesso em: 17 fev. 2014.

HARVEY, L.; WILLIAMS, 2010a. Fifteen years of Quality in Higher Education. Quality in Higher Education, v. 16, n. 1, p. 3-36, 2010.

HARVEY, L.; WILLIAMS, 2010b. Fifteen years of Quality in Higher Education (Part Two). Quality in Higher Education, v. 16, n. 2, p. 81-113, 2010.