Post convidado

Internacionalização, de novo (por Tarso Mazzotti)

Internacionalização, de novo

Por Tarso Mazzotti 

Há os que se opõem à internacionalização das pesquisas na área Educação. Parece-me ser um dos muitos enganos correntes. Por quê? Porque as teorias utilizadas raramente foram produzidas no Brasil. Aliás, o próprio nome da área (Educação) expressa seu uso em inglês, quando antes utilizávamos Pedagogia, este também originados no exterior. Por que não utilizamos Ciências da Educação para nomear a área? Porque, neste caso, a filosofia fica de fora… No entanto, Ciências da Educação é mais comum no exterior, inclusive em Portugal.

A recusa do reconhecimento das pesquisas produzidas em outros países, em particular nos Estado Unidos da América, exprime uma tomada de posição ideológica, que tem por núcleo a identificação daquele com o Imperialismo. Mas essa recusa pode ser mais abrangente, pois há comitês editoriais que rejeitam trabalhos por não citarem autores nacionais, ou utilizarem autores muito antigos, como Aristóteles, e isto no campo da Filosofia da Educação.

Parece-me que a recusa da internacionalização tem uma origem em uma atitude, uma conduta recorrente, a recusa da erudição. Essa atitude (os gregos denominavam ethos. Ih! Isto cheira erudição, logo…) parece orientar-se pelo seguinte enunciado: apenas o atual é valioso. Por isso, no caso da Educação, alguns problemas considerados nossos contemporâneos apresentam-se como novidades, quando foram tratados cuidadosamente por autores antigos. Exemplo? A educabilidade. Educabilidade? A qualidade educativa de algo, como um conjunto de conhecimentos. Os defensores o trivium e do quadrivium consideravam que as disciplinas escolares iniciais, as do ensino básico, seriam as que viabilizam o desenvolvimento da pessoa, tornando-as melhores, mais capazes no domínio de seus processos de pensamento, de argumentação, o que implica dominar a língua (gramática, retórica e dialética ou lógica). Depois seria preciso dominar os instrumentos intelectuais para tratarem das coisas do mundo (geometria, aritmética, astrologia e harmonia ou música). Essa educação liberal, por não servir os outros, predominou no Ocidente do século III até o XVII-XVIII, embora existam escolas contemporâneas que a mantenham (cf, na Internet). O que isso tem a ver com o presente? O problema central: quais as disciplinas efetivamente melhoram as pessoas?

Como se ensinava? Por meio da imitação, da mimesis, tanto no caso da formação para se tornar um oficial, artesão, profissional quanto na educação liberal. Pode-se dizer que os antigos eram escolanovistas ou progressivistas? Seria um anacronismo, o correto é inverter a comparação, pois o movimento da escola nova retomou, em parte, o que os humanistas dos séculos XVI e XVII faziam.

Nada disso aparece quando se opera com slogans como “formar o cidadão crítico e participativo”, pois há excesso de significados que cada qual se apropria como bem entende. Fiquemos com o termo crítico. O que significa? Na linguagem técnica da filosofia significa analisar. Logo, é preciso que as pessoas dominem os meios ou instrumentos de análise. Quais são eles? Os esquemas argumentativos codificados ao longo de 2.700 anos.

O que isto tem a ver com a internacionalização? Nada, caso seu significado seja manter relações sociais e acadêmicas com estrangeiros. Tudo, caso se entenda que o conhecimento confiável não tem pátria e nem está datado. Ainda voltarei a isto.

Classificação de periódicos (por Tarso Mazzotti)

Classificação de Periódicos

Por Tarso Mazzotti

O Qualis-Capes periódicos, revisto a cada três anos, põe no topo os internacionais (A1 e A2), segundo um conjunto de critérios que vão desde da diagramação até o número de autores não brasileiros. Quanto mais estrangeiros, maior a penetração fora do país. Verifique a lista dos periódicos para obter informações a respeito. Publicar em um periódico A1 é mais interessante do que em um B1, nacional com a classificação mais alta no item.

Por que a internacionalização é considerada superior? Por mostrar que o periódico tem uma audiência ampla,logo, é reconhecido por muitos. Essa medida é a mesma utilizada para identificar os oradores mais influentes: são os auditórios/públicos que dizem quais são as autoridades, quais os influentes. Pode-se saber muito acerca dos auditórios pelo exame do que dizem os oradores que eles  autorizam.

Para ser influente fora do país é preciso adequar-se aos múltiplos auditórios externos, logo seguir a suas agendas. Certamente em ciências da natureza é relativamente mais simples do que nas ciências do homem, pois as suas agendas são menos determinadas pelas contingências locais. Mesmo assim, há setores que mais facilmente podem aderir a agenda dos auditórios externos do que outras, para obter informações a respeito é suficiente ler o que muitos cientistas naturais dizem a respeito da exigência de internacionalização, geralmente quando discutem o Qualis-Capes.

O que se tem feito para atender a internacionalização de periódicos brasileiros da área de ciências dos homem? Além de solicitar artigos de pesquisadores estrangeiros, seja qual for a nacionalidade, tende-se a publicar artigos em inglês, a língua franca, de autores brasileiros.

Há outra métrica envolvida: a influência de um periódico é determinada pelo número de citações: mais artigos citados, maior a influência. No Google Acadêmico, para citar um de fácil acesso, pode-se verificar essa métrica, “fator de impacto”. para diversos periódicos.

No Google Acadêmico o fator de impacto utilizado é o h5, definido da seguinte maneira: índice de artigos publicados nos últimos cinco anos (daí o cinco no nome) que tenha sido citados h vezes cada, em que h é arbitrado por quem calcula.  Alguns exemplos, o periódico Nature apresentava h5 = 339 (mediana 507); os Cadernos de Saúde Pública: 40 (mediana 54); Educação & Sociedade: 22 (37); Interface comunicação, saúde e educação: 18 (25); Cadernos de Pesquisa (da Fundação Carlos Chagas e dedicada à Educação): 14 (27).

Os mais influentes são os das áreas médicas, e biológicas. Por quê? Pelo fato de os pesquisadores lerem mais artigos, geralmente curtos, para si manterem atualizados. Outras áreas, como a educação, não têm essa urgência e, ao que parece, nelas se prefere livros a artigos. Isto também pode ser verificado a partir das métricas. Usarei um exemplo pessoal, para não entrar na vida dos outros, duas das minhas publicações mais citadas são o capítulo “Estatuto de cientificidade da pedagogia” (41) e o livro em coautoria “Ciênci(s) da Educação” (51), o artigo mais citado é “Representação social de problema ambiental: uma contribuição para a educação ambiental” (34). O característico é o tempo de publicação: o livro foi publicado em 2000, o capítulo e o artigo em 1997. Uma cauda longa. Caso se possa considerar estas informações como indicadoras do característico da área, então o período de mensuração usual, cinco anos, não refletiria a influência de um pesquisador. Pode-se ter o I10 (índice 10), análogo ao h5, mas com prazo maior: 10 anos. Neste caso, considerando todos as minhas publicações (321) o I10 é o mesmo de h5: 9; considerando as publicadas após 2008, aqueles índices são, respectivamente, 9 e 3.

Medindo a qualidade dos cientistas (por Tarso Mazzotti)

Medindo a qualidade dos cientistas

Por Tarso Mazzotti

Como medir a produtividade de cientistas e programas de pós-graduação stricto senso? Simples: conte quantos artigos publicaram em períodos; classifique os periódicos segundo alguns critérios; faça o mesmo para livros e capítulos de livros; deixe de fora a participação em eventos. Pronto, terá uma medida da qualidade dos pesquisadores e programas (ditos cursos).

Essa métrica escalar, pois estabelece uma hierarquia, sustenta-se no argumento: a qualidade dos artigos é avaliada por pareceristas qualificados dos periódicos, idem dos conselhos das editoras de livros, logo quanto maior for a qualidade daqueles, maior a dos trabalhos publicados. O que impõe a necessidade de escalonar os periódicos e editoras e/ou livros: Qualis Periódicos e Qualis Livros da Capes, por exemplo.

Por que essa metrificação é necessária? Porque a CAPES avalia os programas de pós-graduação para os credenciar, mantê-los credenciados, hierarquizando-os e conferir um selo de qualidade. Tudo muito hígido e intersubjetivo. Certo? Em parte, pois as decisões acerca dos critérios obedecem políticas determinadas por um comitê predominantemente composto por pesquisadores vinculados às ciências da natureza e das matemáticas. Certamente estes pesquisadores operam concepções de ciência muito diversa dos demais, particularmente os das ciências do homem. Nada demais, não fosse por um pequeno detalhe: a maior nota é dada  aos pesquisadores e/ou programas que se mostrem internacionais, independente das características das áreas.

Certamente a ciência é transnacional. Logo, não é demasiado exigir a internacionalização dos programas de pós e nem dos pesquisadores. O problema é outro: para que haja diálogo (com estrangeiros ou não) é preciso que as partes sejam reconhecidas como iguais em conhecimento, do contrário tem-se uma relação análoga a de professor e aluno, assimétrica por natureza. Neste caso, a internacionalização implica subordinação do pesquisador/programa aos escolhidos para serem os orientadores que têm por mérito serem estrangeiros, mesmo que suas qualificações não sejam muito distantes das dos brasileiros. Ah! Então é preciso saber escolher os parceiros. Certamente, mas como o fazer se os pesquisadores/programas não tiveram contato suficiente para poder escolher? Uma via é participar de eventos internacionais, para isso precisa de financiamento, mas não se o obtém caso não tenha uma boa nota nas avaliações… Um raciocínio circular? Para ser internacional o pesquisador/programa precisa ser internacional desde sempre. Como? Deve ter-se doutorado no exterior, pois seu orientador abrirá os caminhos para outros contatos, bem como manteve relações com outros pesquisadores. Caso não tenha doutorado no exterior a saída é o pós-doutorado, que não é um título, mas estágio para ampliar tanto o domínio da língua estrangeira quanto saber das novidades e, caso tenha um projeto realizável no prazo da bolsa, produzir um ou alguns artigos, de preferência em co-autoria. Esse é o caminho para a internacionalização dos pesquisadores/programas de pós-graduação, pois viabiliza convênios que efetivamente serão implementados.

Pronto. Agora está tudo resolvido: internacionalizar é muito simples e resulta em uma boa classificação nas planilhas da CAPES, CNPq, nas demais agências e na instituição em que trabalha.

Não perca tempo, torne-se fluente em inglês, pois é a língua franca de nosso tempo. Encontre um grupo no exterior, adapte-se à agenda do grupo, faça um projeto de pós-doutorado (ou de doutorado), solicite sua bolsa. Assim estará começando sua carreira internacional que lhe dará boas notas na avaliação.

Em outro post falarei da internacionalização dos periódicos brasileiros da área Educação.

A seguir: posts de autor convidado

Serão publicados aqui, em breve, três posts do nosso colega do PPGE/UNESA, o Prof. Tarso Mazzotti, da Linha de Pesquisas RSPE. O primeiro focaliza a questão da avaliação de qualidade de cientistas; o segundo explora uma pontuação feita no primeiro e aborda a questão da classificação de periódicos (científicos); por fim, o último texto discute a internacionalização da pesquisa. Trata-se, portanto, de três assuntos inter-relacionados e bastante importantes para todos nós que conduzimos pesquisa. Há, também, questões relativas ao “papel” das TIC como contigência, mas os textos não exploram essa possibilidade (seria um debate bastante interessante).

A seguir!