Teorização

Enquanto o e-book não chega… entrevista com o Prof. Ralph Bannell

Estamos a todo o vapor nos últimos estágios de preparação de nosso e-book, sobre o qual contamos um pouco neste post do ano passado – a trabalheira tem sido enorme (pesquisadores e professores definitivamente não têm férias…), mas estamos muitíssimo satisfeitos com a forma que o volume final tomou.

Em breve, disponibilizaremos um e-book inteiramente bilíngue (português-inglês) com oito capítulos escritos, especialmente para nós, por especialistas de vários países e outros três veiculando textos a serem publicados em nosso idioma pela primeira vez. Há, ainda, uma deliciosa “cereja no bolo”: o belo prefácio escrito pelo Prof. Ralph Ings Bannell, diretor do Departamento de Educação da PUC-Rio, e um dos autores do livro Educação no século XXI: cognição, tecnologia e aprendizagens (Vozes, 2016).

Em seu prefácio, o Prof. Ralph mobiliza ideias e conceitos de diferentes subáreas da Filosofia para pensarmos questões relativas à presença de artefatos digitais na educação de forma aprofundada e contextualizada. Aguarde!

Enquanto o e-book não chega, vale assistir a entrevista concedida pelo Prof. à TV da Faculdade Artur Sá Earp Neto – Faculdade de Medicina de Petrópolis em fevereiro deste ano. Na entrevista, o professor discute, em um contexto histórico-filosófico, algumas das questões que emergem na interface educação-tecnologia, e traz alguns dos assuntos que explora mais detidamente em sua contribuição ao nosso e-book.

Por fim: fique atento à publicação do e-book, prevista para início de abril deste ano,  na página Nossas produções!

“Educação e tecnologia: perspectivas críticas” (disciplina TICPE)

Ainda que cada um de nós, docentes na linha TICPE, tenha suas próprias tendências (preferências) teóricas e temáticas de maior interesse, compartilhamos um sentimento: uma profunda inquietação com relação a generalizações, universalizações e naturalizações. A partir disso, tentamos promover discussões mais aprofundadas acerca daquilo que nos vem sendo servido como “dado” (“realidade inescapável”?) não apenas nas mídias de massa, mas, infelizmente, também na própria literatura acadêmica da área: com base em uma crença na “neutralidade” da tecnologia, vista amplamente como “solução” (panaceia?) para uma educação dita “falida”, uma defesa dogmática (crença quase religiosa?) no poder dos artefatos digitais de “tornar o mundo um lugar melhor” (o slogan de preferência dos programadores no seriado Silicon Valley).

Em 2016.2, integramos alguns elementos de discussões que temos conduzido entre nós em uma disciplina que ministramos em equipe  (eu, Jaci e Márcio): uma Tópicos Especiais TICPE intitulada Educação e tecnologia: perspectivas críticas. Neste post, compartilho algumas de nossas ideias e o programa que seguimos no semestre que se encerra.

O objetivo geral da disciplina foi apresentar um panorama de questionamentos críticos pertinentes às discussões correntes sobre Educação e Tecnologia. Os objetivos específicos foram os seguintes:

Problematizar temáticas ligadas às TIC na Educação e ao campo da Tecnologia Educacional a partir de 3 eixos de discussão e análise: “ideologias”, “metáforas” e “discursos”;

Encorajar os participantes a rever criticamente suas premissas em relação à temática;

Promover a escrita reflexiva e em diálogo com os projetos de pesquisa dos participantes.

Ementa

Questões para pensar criticamente as TIC na Educação. Significados do termo “crítico”. Ideologias: sentidos de “ideologia”; “Evolução”, “progresso” e (pseudo-)revolução. Metáforas: da Educação, das TIC na Educação e da Tecnologia Educacional. Discursos: concepções de “discurso”; “discurso da inclusão”; “discurso da aprendizagem”; TIC nas políticas públicas educacionais em uma perspectiva discursiva.

A experiência girou em torno de 15 encontros semanais de 3 horas de duração, nos quais foram entremeados elementos de aulas dialógicas e expositivas, exigindo que os alunos conduzissem atividades preparatórias (leitura e escrita) antes de cada encontro. 

Dividimos o programa da disciplina em 4 unidades: (I) Introdução; (II) Ideologias; (III) Metáforas; (IV) Discursos. A introdução delimitou a área de discussão e convidou os alunos a adotarem uma postura, em geral, mais “desconfiada”, menos repleta de certezas e pré-concepções. As unidades subsequentes exploraram a Educação e Tecnologia a partir de conceitos básicos das abordagens teórico-metodológicas com as quais trabalhamos na linha: “ideologia”, “metáforas fundantes” e “discursos”.

Eis o esquema de trabalho do semestre:

AULA/DATA UNIDADE ATIVIDADES EM SALA ATIVIDADES PREPARATÓRIAS (para a semana seguinte) LEITURAS COMPLEMENTARES
Aula 1

25/08/16

I Introdução Apresentações

Apresentação dos professores e dos estudantes (pessoal e de projetos/interesses).

Apresentação da disciplina e da proposta de avaliação.

LEITURA E RESUMO

Rüdiger (2011), cap. 1 “A cibercultura e a polêmica sobre a cultura … na era das massas”
Aula 2

01/09/16

7 questões para pensar as TIC na Educação
Discussão de Selwyn (no prelo)
LEITURA E RESUMO

Rüdiger (2012), cap. 2 “Fáusticos, prometeicos e neomarxistas” e cap. 3 “O Ocidente e a técnica: estágios reflexivos do pensamento tecnológico”
Aula 3

08/09/2016

Exibição e discussão do filme “Mera coincidência
Aula 4 15/09/16 “Definições” básicas de educação e tecnologia
Discussão de Selwyn (2011)
LEITURA E RESUMO

Rüdiger (2011), cap. 5 “Cibercultura e a era da informação: Castells e a sociedade em rede”
Aula 5

22/09/16

Continuação da discussão iniciada na aula anterior (Selwyn, 2011)
Aula 6

29/09/16

II Ideologias Sentidos de “ideologia”

Discussão de Selwyn (2014)

 

LEITURA E RESUMO

  • Nobre (2014)
Aula 7

06/10/16

Sentidos de “crítica”
Discussão a partir de Nobre (2014)
LEITURA E RESUMO

Rüdiger (2011), cap.11 “A sagração da internet: cultura e tecnicismo em André Lemos”
Aula 8

13/10/16

“Evolução”, “progresso” e (pseudo-)revolução
Discussão de Barbrook e Cameron (1995/2000)
LEITURA E RESUMO

  • Calvino (2003) – trechos selecionados
  • Lemgruber (2009)
Aula 9

20/10/16

III Metáforas A metáfora como recurso epistemológico
Discussão de Calvino (2003) e Lemgruber (2009)
LEITURA E RESUMO

  • Sócrates/Platão -trechos
  • Comênio (1995) – trechos
  • Freire (1987) – trechos
Aula 10

27/10/16

Metáforas da Educação
O “mestre parteiro” (Sócrates); a sala de aula como tipografia (Comenius); a “educação bancária” (Freire) – discussão a partir dos trechos selecionados de Platão, Comênio e Freire.
LEITURA E RESUMO
  • Cruz (2007), “Introdução” e “Ciberespaço: la ‘alucinación consensual’ académica”
03/11/16 Aula cancelada
Aula 11

10/11/16

Metáforas da Tecnologia Educacional
Rede; Teia; Puzzle; Lego; Mosaico
(discussão a partir de imagens)
LEITURA E RESUMO

  • Barreto (2009a)
  • Barreto (2009b)
Lins (2011)
Aula 12

17/11/16

IV Discursos Discursos na Educação (1): o “discurso da inclusão”
Discussão de Barreto (2009a; 2009b)
LEITURA E RESUMO

  • Biesta (2013a)
  • Ball (2013)
Biesta (2013b)
Aula 13

24/11/16

Discursos na Educação (2): o “discurso da aprendizagem”
Discussão de Biesta (2013a) e Ball (2013)
LEITURA E RESUMO

  • Zuin (2010)
Aula 14

1/12/16

Discursos na Educação e Políticas Educacionais: “Tecnologias nas políticas”
Discussão de Zuin (2010)
Aula 15

8/12/16

FECHAMENTO DA DISCIPLINA
Discussão (com a participação do Prof. Alexandre Rosado) –  filme Snowden, de Oliver Stone

Veja abaixo os detalhes das leituras, bem como uma lista de leituras recomendadas que ainda estamos definindo – lembrando que as traduções dos capítulos de livros de Neil Selwyn estão compartilhadas aqui (SELWYN, 2011) e aqui (SELWYN, 2014), e o primeiro texto que utilizamos, também de Neil, será publicado em nosso e-book temático.

Para a discussão de metáforas da Educação e Tecnologia, utilizamos duas colagens projetadas em slides. A primeira colagem remete a metáforas discutidas por Lemgruber (2009):

slide-1

A segunda colagem remete a imagens recorrentes na tecnologia educacional, associadas, em particular, a Objetos de Aprendizagem (Wikipedia em inglês, pois tem uma seção que resume as críticas ao conceito) e Recursos Educacionais Abertos (REA):

slide-2

À luz de nossa experiência no semestre, temos várias ideias de modificações. A discussão de filmes, em particular, que temos feito em outras disciplinas, é algo que sempre gera muita controvérsia em nossas reuniões de linha, pois há muito material (de “clássicos” como MetrópolisBlade Runner, cuja integração em disciplina discutimos aqui, a produções recentes como as séries Black Mirror, Westworld e Silicon Valley – essa última, em particular, compõe um excelente contraponto com A Ideologia Californiana de Richard Barbrook). Durante as férias escolares, dedicaremos algum tempo à discussão da experiência de 2016.2, com vistas a aprimorar o programa e incluir a disciplina em nossa matriz curricular.

Bibliografia

BALL, S. Aprendizagem ao longo da vida, subjetividade e a sociedade totalmente pedagogizada. Educação, Porto Alegre, v. 36, n. 2, p. 144–155, 27 jun. 2013. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/view/12886/9446>. Acesso em: 22 ago 2016.

BARBROOK, R.; CAMERON, A. A Ideologia Californiana. (The Californian Ideology). Trad. disponível em: Cibercultura online. Arquivo de disciplina ministrada por F. Rudiger, UFRGS, 1995/2000. Disponível em: < http://cibercultura.fortunecity.ws/vol2/idcal.html >. Acesso em: 16 ago. 2016.

BARRETO, R. G. O discurso da inclusão. In:_____. Discursos, tecnologias, educação. Práticas de Linguagem. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2009a.

_____.  Para começo de conversa: texto, discurso(s), intertextualidade. In:_____. Discursos, tecnologias, educação – Pesquisa em educação. Práticas de Linguagem. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2009b.

BIESTA, G. Contra a aprendizagem: recuperando uma linguagem para a educação numa era da aprendizagem. In:_____. Para além da aprendizagem: educação democrática para um futuro humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013a. (Coleção Educação: Experiência e Sentido).

CALVINO, I. Cidades Invisíveis. Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2003.

COMÊNIO, J. A Didactica Magna. Lisboa, Calouste Gulbenkian, 1995

FREIRE, P. A concepção «bancária» da ducação como instrumento da opressão. Seus pressupostos, sua crítica. In: ______.Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GIDDENS, A.; SUTTON, P. W. Ideologia. In:_____. Conceitos essenciais da Sociologia. Trad. Claudia Freire. São Paulo: Editora UNESP, 2015.

LEMGRUBER, M. Argumentação, metáforas e labirintos. Educação e Cultura Contemporânea, Rio de Janeiro, v. 6, n. 13, p. 155-172, 2009.

NOBRE, M. A Teoria Crítica. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

PLATÃO. Teeteto. Versão eletrônica: < http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000068.pdf >. Tradução: Carlos Alberto Nunes. Acesso em 23 nov. 2016

SELWYN, N. Educação e tecnologia: questões críticas. In: FERREIRA, G. M. S.; ROSADO, A.; CARVALHO, J. S. (Org.) Educação e tecnologia: abordagens críticas. Rio de Janeiro: Universidade Estácio de Sá/Linha TICPE. No prelo.

SELWYN, N. Compreendendo a tecnologia educacional como ideologia. In: _____. Distrusting Educational Technology. Edição para Kindle. Londres: Routledge, 2014.  Tradução: Giselle Ferreira. Disponível em: < https://ticpe.files.wordpress.com/2016/12/neil_selwyn_distrusting_cap2_trad_pt_final.pdf >. 

SELWYN, N. O que entendemos por “educação” e “tecnologia?” In: _____. Education and Technology: key issues and debates. Edição para Kindle. Londres: Bloomsbury, 2011. Tradução: Giselle Ferreira. Disponível em: < https://ticpe.files.wordpress.com/2016/12/neil_selwyn_keyquestions_cap1_trad_pt_final1.pdf >

Bibliografia complementar (em expansão)

BIESTA, G. A educação e a questão do ser humano. In:_____. Para além da aprendizagem: educação democrática para um futuro humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013b.

BARRETO, R. G.; MAGALHÃES, L. K. C. Tecnologia singular, sentidos plurais. Instrumento, v. 13, n. 2, p. 11-22, 2011. Disponível em: < https://instrumento.ufjf.emnuvens.com.br/revistainstrumento/article/view/1596/1112 >. Acesso em 16 ago. 2016.

CRUZ, E. G. Las metáforas de internet. Barcelona: Editorial UOC, 2007.

CUBAN, L. Oversold and underused. Computers in the classroom. Cambridge; Londres: Harvard University Press, 2001.

LINS, M. J . S. C. Educação bancária: uma questão filosófica de aprendizagem. Educação e Cultura Contemporânea, v. 8, n. 16, 2011. Disponível em: < http://periodicos.estacio.br/index.php/reeduc/article/viewArticle/168 >. Acesso em: 16 ago. 2016.

RUDIGER, F. Teorias da Cibercultura. Perspectivas, questões e autores. Porto Alegre: Ed. Sulina, 2011.

 

 

 

Tradução 2: “A tecnologia educacional como ideologia”, de Neil Selwyn

f3836Complementando nosso “pacote de fim de ano”  🙂  , circulamos agora a segunda tradução de texto do sociólogo da Educação e Tecnologia britânico Neil Selwyn:  o capítulo 2 de Distrusting Educational Technology: critical questions for changing times (Desconfiando da Tecnologia Educacional. Londres: Routledge, 2014 – também disponível para Kindle), intitulado “Educational Technology as ideology”, em português, “Tecnologia educacional como ideologia“. Eis uma tradução da apresentação do livro:

Desconfiando da Tecnologia Educacional explora criticamente o consenso otimista que envolve o uso da tecnologia digital na educação. A partir de uma variedade de perspectivas teóricas e empíricas, o livro mostra como as formas aparentemente neutras da tecnologia educacional têm, de fato, servido para alinhar a oferta e as práticas educacionais a valores neoliberais, desgastando a natureza da educação como um bem público e direcionando-a às tendências individualistas do século XXI. Questionando amplamente as dimensões ideológicas da tecnologia educacional, este livro examina, em detalhes, tipos específicos de tecnologia educacional atualmente em uso na educação, incluindo a educação virtual, cursos “abertos”, jogos digitais e mídias sociais. Conclui com recomendações específicas na direção de formas mais justas de tecnologia educacional. Leitura ideal para qualquer pessoa interessada na natureza em rápida transformação da educação contemporânea, Desconfiando da Tecnologia Educacional constitui uma crítica ambiciosa e muito necessária.

O capítulo 2 analisa (como o texto compartilhado anteriormente, de forma quase “didática”) várias concepções de “ideologia”, de forma a construir uma base para a discussão de Educação e Tecnologia como uma área caracterizada por conflitos e tensões de natureza fortemente política, mas que tendem a ser ignorados. Em outras palavras: o capítulo oferece um uma discussão aprofundada e muitíssimo bem argumentada em oposição à ideia de que a tecnologia é neutra.

Trata-se, aqui, de um texto bem mais denso do que o anterior (em parte, devido à complexidade da discussão sobre o tema central, “ideologia”), mas que articula as bases propostas na apresentação do livro. Os capítulos subsequentes exploram o que, de fato, consiste em ilustrações, exemplos específicos de “gêneros da tecnologia educacional” atual, conforme Selwyn explica no final do capítulo inicial: “virtual”, “aberta”, “jogos” e “social”. Vale analisar, também, a lista de referências, que inclui muitas possibilidades interessantes de outras leituras.

Desejamos boas leituras a todos – e fiquem por aqui, pois, mais tarde, circularemos novidades sobre nosso e-book anual!

Clique aqui para baixar “Tecnologia Educacional como ideologia“, de Neil Selwyn.

Clique aqui para acessar o texto que disponibilizamos ontem, “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’?“, do mesmo autor.

Tradução 1: “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’?”, de Neil Selwyn

f3836Na sequência do anúncio feito em postagem de ontem, compartilhamos agora o primeiro texto prometido, do sociólogo da Educação e Tecnologia britânico Neil Selwyn: o capítulo 1 do livro Education and Technology: key issues and debates (Londres: Routledge, 2011 – recentemente disponibilizado em sua segunda edição)Em tradução, eis a apresentação sucinta do livro:

A tecnologia digital está no coração da oferta educacional contemporânea. Este livro considera aspectos-chave da área e discute questões fundamentais – ainda que quase nunca verbalizadas – pertinentes ao uso crescente de tecnologias na educação. Focaliza aspectos sociais e técnicos dessas questões, reflete cuidadosamente sobre as pessoas, práticas, processos e estruturas envolvidas no uso de tecnologias na educação, e considera uma gama de debates e controvérsias correntes. A tecnologia substituirá a escola ou a universidade? A tecnologia substituirá o professor? O que realmente sabemos a respeito da relação entre aprendizagem e tecnologia? A tecnologia torna a aprendizagem mais justa? A tecnologia pode apoiar a resolução dos muitos problemas e desigualdades educacionais que confrontam pessoas ao redor do mundo? Qual o futuro da tecnologia e educação? Neil Selwyn lança um olhar crítico a alguns dos debates centrais sobre as tecnologias digitais na educação. O volume inclui questões de estudo e listas anotadas de leituras recomendadas, bem como um Website com sugestões de fontes e recursos complementares.

O capítulo traduzido é intitulado “What do we mean by ‘education’ and ‘technology’?”, em português, “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’“?.  Nesse capítulo, o autor examina diferentes concepções de “educação” e “tecnologia” de forma quase “didática”, lançando as bases para a apresentação de uma concepção mais abrangente de tecnologia educacional. Concebendo “tecnologia” de forma que engloba atores, relações, práticas e contextos, além de artefatos, é possível conduzir-se análises que revelam questionamentos bem mais interessantes e profundos do que as questões meramente instrumentais associadas ao “uso” de artefatos digitais em situações educacionais.

É interessante notar a consistência entre a concepção de “tecnologia” trazida em um post passado (uma tradução que fiquei devendo, mas que, um dia, terminarei) e a proposta de Selwyn, apesar dos autores (aparentemente) terem se apoiado em fontes bastante diferentes.

Nossa escolha em trabalhar com esse capítulo deve-se, além daquilo que percebemos como um “didatismo”, à sua natureza de “síntese situada”: ideias complexas de várias áreas são articuladas e situadas no contexto da Educação, que nem sempre é o caso em textos especialistas (da Filosofia da Técnica, por exemplo, que são bem menos acessíveis a leitores não especializados). A lista de referências utilizada é riquíssima – além de textos já considerados “clássicos” (como a trilogia A Era da Informação de Castells), engloba muitos outros autores que permanecem, como Selwyn, pouco divulgados por aqui.

Paro por aqui, mas volto amanhã com o segundo texto – até lá, boa leitura!

Clique aqui para baixar o “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’“?, de Neil Selwyn.

Educação e tecnologia em perspectiva crítica: traduções de textos de Neil Selwyn chegando!

Com enorme satisfação, compartilharemos, nos próximos dias, traduções para o português de dois textos excelentes do sociólogo da Educação e Tecnologia Neil Selwyn, professor titular na Universidade de Monash, em Melbourne, na Austrália.  Neil é um dos autores mais interessantes na área da Educação e Tecnologia no idioma inglês (seu trabalho já foi mencionado em algumas postagens passadas), de modo que é com grande alegria que disponibilizaremos aqui uma pequena amostra de sua produção (recomendadíssima, aliás) como material para “degustação” e difusão entre leitores e estudiosos lusófonos interessados na área.

Ainda que a escrita de Neil seja incrivelmente lúcida e “fluida”, e ainda que seus livros sejam apresentados como livros-texto destinados a um público não especializado, o autor articula ideias complexas de áreas como a Filosofia e a Sociologia e incorpora muitos neologismos e “regionalismos” (alguma linguagem coloquial), tornando os textos de difícil compreensão para quem não tem uma fluência mínima no idioma. Assim, com o seu aval, preparei traduções para usarmos na disciplina que ministramos no semestre que se encerra (2016.2), Educação e Tecnologia: perspectivas críticas (assunto para outro post!), traduções que circularemos aqui em versão aprimorada e formatada para leitura em e-readers.

Neil defende uma posição inteiramente consistente com as formas de pensar que temos construído coletivamente no grupo TICPE, sintetizadas em termos de uma demanda por maior contextualização e historicidade na discussões sobre a relação entre educação e tecnologia. Em primeiro lugar está a ideia de que é essencial que estejamos atentos à linguagem utilizada nas discussões sobre Educação e Tecnologia, posição também defendida por Neil, por exemplo, neste artigo. Além disso, sentimos um forte incômodo com o uso indiscriminado de categorias macro (como “nativos digitais” – assunto de um post passado), em particular, na ausência de recurso à empiria, como vê-se no gênero “futurologia”, que parece estar sempre a descrever um mundo que “poderia ser” como se fosse o mundo “que é”. Neil aborda tais questionamentos de forma acessível, direta e sempre bem fundamentada em uma ampla gama de literatura acadêmica pertinente e dados empíricos.

Os capítulos são relativamente longos, e a tradução foi trabalhosa (e, como sempre, permanece incompleta no sentido em que detalhes sempre nos escapam, independentemente de quantos “pares de olhos” se debrucem em revisões), então, para nós, faz todo sentido compartilhar os textos com colegas e estudantes para além do nosso PPGE. Esperamos que os textos circulem amplamente e venham a apoiar discussões tão interessantes quanto as que temos conduzido com os nossos alunos.

As traduções serão disponibilizadas também em meu perfil na plataforma academia.edu, site onde Neil mantém um perfil que utiliza para circular parte de sua produção.

Volto amanhã com o primeiro texto, mas, deixo com vocês uma curta entrevista com Neil, realizada em um evento organizado em 2016 pelo Centro de Estudios Fundación Ceibal, no Uruguai. Sua fala (com legendas em castelhano), apresentada em duas partes, aborda temáticas que constituem alguns dos rótulos mais comentados atualmente na Tecnologia Educacional, incluindo Analítica da Aprendizagem (Learning Analytics) e BYOD (Bring Your Own Device – Traga Seu Próprio Artefato), mas seus questionamentos, como sempre, são estruturados em torno de temas e problemas educacionais. 

Parte 1

Parte 2

 

Criticar (com fundamentação) é preciso (slides do SENAED 2015)

CabeçalhoEstão abaixo compartilhados os slides que utilizamos em nossas respectivas apresentações no 11o SENAED, promovido pela ABED. Ambos são arquivos em formato pdf.

Veja que a imagem acima foi retirada da apresentação do Prof. Alexandre, que contém uma excelente lista de leituras integrantes de um corpo de literatura que está gradativamente a surgir oferecendo narrativas críticas sobre a relação entre as TIC e a Educação (infelizmente apenas em inglês, até onde sabemos). Esses trabalhos oferecem discussões embasadas em empiria e fundamentadas em teoria, reconhecendo, assim, a historicidade da relação TIC-Edu e a importância da contingência. Fortemente recomendados!

Clique aqui para baixar os slides do Prof. Alexandre Rosado.

Clique aqui para baixar os slides da Profa. Giselle Ferreira.

Clique aqui para acessar o site do evento.

Clique aqui para visualizar a programação do evento.

Sobre “nativos digitais”

Em uma disciplina que estou ministrando neste semestre, na qual utilizo a obra Psicologia da Educação Virtual, organizada por César Coll e colaboradores, chegamos ao momento de discutir o assunto “nativos digitais”. Dentre os múltiplos “rótulos” que circulam na área das TIC na Educação no momento, esse tem recebido cada vez mais destaque na minha lista de pet hates / weasel wordsRessinto-me, obviamente, de ser categorizada como “imigrante digital” :-), que me parece ter conotações bem pejorativas, além de constituir uma generalização infundada, ou seja, “ponto” para as linhas do tipo de pensamento maniqueísta que me incomoda profundamente.

O capítulo 4, “O aluno em ambientes virtuais: condições, perfil e competências”, de Carles Monereo e Juan Ignacio Pozo, sugere que “idade” não é a única dimensão de diferença nas relações entre TIC e seres humanos. Ótimo. Excelente começo. Porém, como os próprios autores admitem, grande parte do capítulo é tomada por especulações acerca das transformações que as tecnologias digitais estão causando (?) na “mente” humana, compreendida segundo uma abordagem que destaca as relações entre “mente” e cultura proposta por Merlin Donald (1991) (veja aqui uma resenha do livro escrita pelo próprio autor).

Como contraponto para apimentar a discussão com provocações em outras direções (sempre para que eu possa destacar a importância de dados empíricos), pegarei emprestado alguns trechos do livro Deconstructing digital natives. Young People, tecnology and new literacies, organizado por Michael Thomas. Compartilho, então, abaixo, uma tradução (como sempre, apressada) do prefácio, escrito por David Buckingham – talvez seja de interesse para além do meu grupo de alunos.

Há duas palavras problemáticas – bem, várias, como sempre, mas vou ficar com estas: generationing affordances. Deixei-as no original, pois são acompanhadas de alguma explicação. A segunda, affordances, é um termo bastante disseminado na EdTech e, quando tiver outro fim de semana para postar divagações, vou ajeitar minhas anotações sobre isso e compartilhar – um dos significados coloquiais é “possibilidade”, mas grande parte da discussão acadêmica que adota a palavra tem ligações com os significados específicos dados a ela por J. J. Gibson em seu artigo The theory of affordances e em trabalhos subsequentes, e há muitas concepções diferentes e conflitantes.

Desconstruindo “nativos digitais” – Prefácio de David Buckingham

A ideia de que há um conflito de gerações de natureza tecnológica ou midiática não é, de forma alguma, nova. Pode-se olhar para trás, para a década de 1960, quando a ideia de uma “geração televisiva” era popularmente utilizada como um modo abreviado de explicar mudanças sociais; há, também, uma longa história de afirmações semelhantes utilizadas em relação a formas anteriores de cultural popular. Tais ideias são uma elemento fundante de um tipo de “pânico moral”, ainda que suscitem, tipicamente, preocupações mais difusas e generalizadas com o impacto da modernidade. A ideia do conflito de gerações integra uma narrativa de transformação e, até mesmo, de ruptura, na qual destroem-se elementos fundamentais de continuidade entre o passado e o presente. Tais argumentos têm um apelo emocional considerável: ao alinhar afirmativas sobre as mídias e tecnologia com ideias sobre a infância e a juventude, proporcionam um poderoso veículo para algumas de nossos maiores esperanças e temores.

A ideia contemporânea de “nativo digital” – bem como formulações relacionadas, tais como a “geração digital” e a “geração net” – geralmente apresentam essa narrativa básica de forma positiva. O problema aqui não é com os nativos digitais em si, mas, sim, com o resto de nós, os “imigrantes digitais” que permanecem, teimosamente, amarrados a mídias mais velhas, sem sintonia com a atualidade. Tais argumentos frequentemente envolvem uma perspectiva utópica da tecnologia – um história fabulosa sobre como a tecnologia libera e empodera os jovens, permitindo que se tornem cidadãos globais e aprendam e comuniquem-se de formas livres e sem restrições.

Apesar de seu apelo popular, os problemas com essa narrativa são bem óbvios, e muitos deles são discutidos pelos colaboradores neste volume, que reúne uma gama de evidência empírica relativa ao assunto. Proponentes do argumento dos nativos digitais tipicamente superestimam os limites e efeitos das mudanças tecnológicas, ignorando elementos de continuidade. Ainda assim, a história da tecnologia sugere que a mudança, por mais rápida que seja, é geralmente incremental e não revolucionária. Apenas raramente, novas tecnologias simplesmente substituem as já existentes; além disso, há interseções e paralelos consideráveis entre mídias “novas” e “velhas”. As tecnologias não surgem do nada: são desenvolvidas, desenhadas e comercializadas em contextos sociais específicos, que refletem fatores econômicos, culturais e sociais mais amplos. As tecnologias têm possibilidades e limites (ou affordances), mas, sozinhas, não produzem mudança social.

O argumento dos nativos digitais também exagera as diferenças entre gerações, subestimando a diversidade entre elas. Muitos ditos nativos digitais não são usuários mais intensivos das mídias digitais do que os ditos imigrante digitais. Não são, de forma alguma, mais fixados nas tecnologias nem particularmente proficientes nelas, como se assume com frequência. Não têm, necessariamente, as habilidades, a competência ou a fluência “natural” a eles atribuída. Muito do que os jovens fazem com a tecnologia digital é mundano e nada espetacular: seus usos são caracterizados não por manifestações dramáticas de inovação e criatividade, mas, sim, por formas relativamente rotineiras de comunicação e obtenção de informação. As crianças da contemporaneidade têm tantos interesses, assuntos e preocupações quanto as crianças de gerações passadas – mesmo que as formas nas quais se manifestem por meio de seu uso da tecnologia seja diferentes.

Basicamente, o argumento dos nativos digitais tende a essencializar as gerações e, no processo, “exoticizar” os jovens, fazendo-os parecer inerentemente estranhos e diferentes. Há um sentimentalismo acerca das crianças e jovens que é familiar, combinado com um tipo de medo do que poderia estar acontecer com esta geração mais jovens. Enquanto parece positiva e comemorativa, essa caracterização dos jovens é, também, estranhamente desdenhosa: assume que o jovem espontaneamente sabe tudo que precisa saber sobre tecnologia, ao invés de ter que esforçar para aprender. Crescer com a tecnologia pode muito bem implicar uma orientação diferente com relação a ela, mas é, certamente, discutível, o quão duradoura será a diferença. Um dos desenvolvimentos mais impressionantes no Reino Unido nos últimos anos tem sido a rápida adoção da Internet entre indivíduos de meia-idade e idosos: ainda que possa haver um atraso entre as gerações, esse pode vir a ser progressivamente menos significativo.

Ao passo que a noção de conflito de gerações reflete persistentes esperanças e medos do futuro, ela também toma formas diferentes em situações culturais e históricas distintas. Pode haver, também, uma dimensão econômica. Poderíamos, certamente, analisar as afirmações de que os nativos digitais são um tipo de campanha de marketing, promulgada por indivíduos e empresas com bens e serviços à venda em um ambiente comercial volátil. Os jovens são, notoriamente, um mercado imprevisível, e o ritmo das mudanças tecnológicas parece estar acelerando. Consultores e especialistas que afirmam ter conhecimento privilegiado de insider deste mercado certamente se encontrarão em forte demanda. A combinação de apreensão, temor e desejos projetados na tecnologia parece ser intoxicante para diretores de empresas – e, de fato, governos – cujos negócios parecem cada vez mais precarizados.

Ainda assim, apesar de tudo isso, o conceito de uma mudança geracional permanece relevante e produtivo. Há um corpo de análise sociológica e histórica onde – por exemplo, na descrição em nível macro, de Karl Mannheim, da construção de gerações – o conceito poderia ser aplicado à transformação tecnológica de forma útil. Há, também, produtivas análises de como constroem-se gerações – e como as pessoas se definem como membros de gerações – em nível micro, de interações cotidianas. Na área de Estudos do Desenvolvimento, tem havido uma utilização considerável da noção de generationing, a ideia de que (tanto jovens quanto adultos) estamos constantemente nos definindo como membros de gerações por meio de performances identitárias variáveis. Esse processo se desenrola, em casa e na escola, também em termos de como as pessoas utilizam a tecnologia, no que elas dizem sobre isso e como a atividade de utilizar a tecnologia é produzida, construída e regulada. Assim, por exemplo, poderíamos considerar como os pais constroem seus filhos como experts em tecnologia, enquanto, simultaneamente, tentam monitorar e regular o que fazem com ela. A tecnologia frequentemente faz um papel complexo e ambivalente nessa construção mútua e continuada das gerações.

No entanto, essa abordagem requer o uso de um conceito de gerações que é mais reflexivo e crítico do que é tipicamente o caso nas discussões populares sobre o uso de tecnologia por jovens. Se desejamos compreender a natureza desigual e complexa da transformação social, bem como o papel da tecnologia nisso, precisamos de investigações mais cuidados e medidas, que prestem muita atenção à textura da experiência vivida. Este livro oportuno oferece uma contribuição significativa aos debates acerca das tecnologias digitais na educação, ressaltando o valor de uma abordagem baseada na pesquisa por meio da apresentação de evidência empírica e discussão de pesquisadores internacionais na área. Se – apesar de seus limites – o debate sobre os “nativos digitais” provocou esse tipo de colaboração e discussão internacional, então, talvez, tenha sido válido.