Contra a maré

“Educação e tecnologia: perspectivas críticas” (disciplina TICPE)

Ainda que cada um de nós, docentes na linha TICPE, tenha suas próprias tendências (preferências) teóricas e temáticas de maior interesse, compartilhamos um sentimento: uma profunda inquietação com relação a generalizações, universalizações e naturalizações. A partir disso, tentamos promover discussões mais aprofundadas acerca daquilo que nos vem sendo servido como “dado” (“realidade inescapável”?) não apenas nas mídias de massa, mas, infelizmente, também na própria literatura acadêmica da área: com base em uma crença na “neutralidade” da tecnologia, vista amplamente como “solução” (panaceia?) para uma educação dita “falida”, uma defesa dogmática (crença quase religiosa?) no poder dos artefatos digitais de “tornar o mundo um lugar melhor” (o slogan de preferência dos programadores no seriado Silicon Valley).

Em 2016.2, integramos alguns elementos de discussões que temos conduzido entre nós em uma disciplina que ministramos em equipe  (eu, Jaci e Márcio): uma Tópicos Especiais TICPE intitulada Educação e tecnologia: perspectivas críticas. Neste post, compartilho algumas de nossas ideias e o programa que seguimos no semestre que se encerra.

O objetivo geral da disciplina foi apresentar um panorama de questionamentos críticos pertinentes às discussões correntes sobre Educação e Tecnologia. Os objetivos específicos foram os seguintes:

Problematizar temáticas ligadas às TIC na Educação e ao campo da Tecnologia Educacional a partir de 3 eixos de discussão e análise: “ideologias”, “metáforas” e “discursos”;

Encorajar os participantes a rever criticamente suas premissas em relação à temática;

Promover a escrita reflexiva e em diálogo com os projetos de pesquisa dos participantes.

Ementa

Questões para pensar criticamente as TIC na Educação. Significados do termo “crítico”. Ideologias: sentidos de “ideologia”; “Evolução”, “progresso” e (pseudo-)revolução. Metáforas: da Educação, das TIC na Educação e da Tecnologia Educacional. Discursos: concepções de “discurso”; “discurso da inclusão”; “discurso da aprendizagem”; TIC nas políticas públicas educacionais em uma perspectiva discursiva.

A experiência girou em torno de 15 encontros semanais de 3 horas de duração, nos quais foram entremeados elementos de aulas dialógicas e expositivas, exigindo que os alunos conduzissem atividades preparatórias (leitura e escrita) antes de cada encontro. 

Dividimos o programa da disciplina em 4 unidades: (I) Introdução; (II) Ideologias; (III) Metáforas; (IV) Discursos. A introdução delimitou a área de discussão e convidou os alunos a adotarem uma postura, em geral, mais “desconfiada”, menos repleta de certezas e pré-concepções. As unidades subsequentes exploraram a Educação e Tecnologia a partir de conceitos básicos das abordagens teórico-metodológicas com as quais trabalhamos na linha: “ideologia”, “metáforas fundantes” e “discursos”.

Eis o esquema de trabalho do semestre:

AULA/DATA UNIDADE ATIVIDADES EM SALA ATIVIDADES PREPARATÓRIAS (para a semana seguinte) LEITURAS COMPLEMENTARES
Aula 1

25/08/16

I Introdução Apresentações

Apresentação dos professores e dos estudantes (pessoal e de projetos/interesses).

Apresentação da disciplina e da proposta de avaliação.

LEITURA E RESUMO

Rüdiger (2011), cap. 1 “A cibercultura e a polêmica sobre a cultura … na era das massas”
Aula 2

01/09/16

7 questões para pensar as TIC na Educação
Discussão de Selwyn (no prelo)
LEITURA E RESUMO

Rüdiger (2012), cap. 2 “Fáusticos, prometeicos e neomarxistas” e cap. 3 “O Ocidente e a técnica: estágios reflexivos do pensamento tecnológico”
Aula 3

08/09/2016

Exibição e discussão do filme “Mera coincidência
Aula 4 15/09/16 “Definições” básicas de educação e tecnologia
Discussão de Selwyn (2011)
LEITURA E RESUMO

Rüdiger (2011), cap. 5 “Cibercultura e a era da informação: Castells e a sociedade em rede”
Aula 5

22/09/16

Continuação da discussão iniciada na aula anterior (Selwyn, 2011)
Aula 6

29/09/16

II Ideologias Sentidos de “ideologia”

Discussão de Selwyn (2014)

 

LEITURA E RESUMO

  • Nobre (2014)
Aula 7

06/10/16

Sentidos de “crítica”
Discussão a partir de Nobre (2014)
LEITURA E RESUMO

Rüdiger (2011), cap.11 “A sagração da internet: cultura e tecnicismo em André Lemos”
Aula 8

13/10/16

“Evolução”, “progresso” e (pseudo-)revolução
Discussão de Barbrook e Cameron (1995/2000)
LEITURA E RESUMO

  • Calvino (2003) – trechos selecionados
  • Lemgruber (2009)
Aula 9

20/10/16

III Metáforas A metáfora como recurso epistemológico
Discussão de Calvino (2003) e Lemgruber (2009)
LEITURA E RESUMO

  • Sócrates/Platão -trechos
  • Comênio (1995) – trechos
  • Freire (1987) – trechos
Aula 10

27/10/16

Metáforas da Educação
O “mestre parteiro” (Sócrates); a sala de aula como tipografia (Comenius); a “educação bancária” (Freire) – discussão a partir dos trechos selecionados de Platão, Comênio e Freire.
LEITURA E RESUMO
  • Cruz (2007), “Introdução” e “Ciberespaço: la ‘alucinación consensual’ académica”
03/11/16 Aula cancelada
Aula 11

10/11/16

Metáforas da Tecnologia Educacional
Rede; Teia; Puzzle; Lego; Mosaico
(discussão a partir de imagens)
LEITURA E RESUMO

  • Barreto (2009a)
  • Barreto (2009b)
Lins (2011)
Aula 12

17/11/16

IV Discursos Discursos na Educação (1): o “discurso da inclusão”
Discussão de Barreto (2009a; 2009b)
LEITURA E RESUMO

  • Biesta (2013a)
  • Ball (2013)
Biesta (2013b)
Aula 13

24/11/16

Discursos na Educação (2): o “discurso da aprendizagem”
Discussão de Biesta (2013a) e Ball (2013)
LEITURA E RESUMO

  • Zuin (2010)
Aula 14

1/12/16

Discursos na Educação e Políticas Educacionais: “Tecnologias nas políticas”
Discussão de Zuin (2010)
Aula 15

8/12/16

FECHAMENTO DA DISCIPLINA
Discussão (com a participação do Prof. Alexandre Rosado) –  filme Snowden, de Oliver Stone

Veja abaixo os detalhes das leituras, bem como uma lista de leituras recomendadas que ainda estamos definindo – lembrando que as traduções dos capítulos de livros de Neil Selwyn estão compartilhadas aqui (SELWYN, 2011) e aqui (SELWYN, 2014), e o primeiro texto que utilizamos, também de Neil, será publicado em nosso e-book temático.

Para a discussão de metáforas da Educação e Tecnologia, utilizamos duas colagens projetadas em slides. A primeira colagem remete a metáforas discutidas por Lemgruber (2009):

slide-1

A segunda colagem remete a imagens recorrentes na tecnologia educacional, associadas, em particular, a Objetos de Aprendizagem (Wikipedia em inglês, pois tem uma seção que resume as críticas ao conceito) e Recursos Educacionais Abertos (REA):

slide-2

À luz de nossa experiência no semestre, temos várias ideias de modificações. A discussão de filmes, em particular, que temos feito em outras disciplinas, é algo que sempre gera muita controvérsia em nossas reuniões de linha, pois há muito material (de “clássicos” como MetrópolisBlade Runner, cuja integração em disciplina discutimos aqui, a produções recentes como as séries Black Mirror, Westworld e Silicon Valley – essa última, em particular, compõe um excelente contraponto com A Ideologia Californiana de Richard Barbrook). Durante as férias escolares, dedicaremos algum tempo à discussão da experiência de 2016.2, com vistas a aprimorar o programa e incluir a disciplina em nossa matriz curricular.

Bibliografia

BALL, S. Aprendizagem ao longo da vida, subjetividade e a sociedade totalmente pedagogizada. Educação, Porto Alegre, v. 36, n. 2, p. 144–155, 27 jun. 2013. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/view/12886/9446>. Acesso em: 22 ago 2016.

BARBROOK, R.; CAMERON, A. A Ideologia Californiana. (The Californian Ideology). Trad. disponível em: Cibercultura online. Arquivo de disciplina ministrada por F. Rudiger, UFRGS, 1995/2000. Disponível em: < http://cibercultura.fortunecity.ws/vol2/idcal.html >. Acesso em: 16 ago. 2016.

BARRETO, R. G. O discurso da inclusão. In:_____. Discursos, tecnologias, educação. Práticas de Linguagem. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2009a.

_____.  Para começo de conversa: texto, discurso(s), intertextualidade. In:_____. Discursos, tecnologias, educação – Pesquisa em educação. Práticas de Linguagem. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2009b.

BIESTA, G. Contra a aprendizagem: recuperando uma linguagem para a educação numa era da aprendizagem. In:_____. Para além da aprendizagem: educação democrática para um futuro humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013a. (Coleção Educação: Experiência e Sentido).

CALVINO, I. Cidades Invisíveis. Rio de Janeiro: Ed. Globo, 2003.

COMÊNIO, J. A Didactica Magna. Lisboa, Calouste Gulbenkian, 1995

FREIRE, P. A concepção «bancária» da ducação como instrumento da opressão. Seus pressupostos, sua crítica. In: ______.Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GIDDENS, A.; SUTTON, P. W. Ideologia. In:_____. Conceitos essenciais da Sociologia. Trad. Claudia Freire. São Paulo: Editora UNESP, 2015.

LEMGRUBER, M. Argumentação, metáforas e labirintos. Educação e Cultura Contemporânea, Rio de Janeiro, v. 6, n. 13, p. 155-172, 2009.

NOBRE, M. A Teoria Crítica. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

PLATÃO. Teeteto. Versão eletrônica: < http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000068.pdf >. Tradução: Carlos Alberto Nunes. Acesso em 23 nov. 2016

SELWYN, N. Educação e tecnologia: questões críticas. In: FERREIRA, G. M. S.; ROSADO, A.; CARVALHO, J. S. (Org.) Educação e tecnologia: abordagens críticas. Rio de Janeiro: Universidade Estácio de Sá/Linha TICPE. No prelo.

SELWYN, N. Compreendendo a tecnologia educacional como ideologia. In: _____. Distrusting Educational Technology. Edição para Kindle. Londres: Routledge, 2014.  Tradução: Giselle Ferreira. Disponível em: < https://ticpe.files.wordpress.com/2016/12/neil_selwyn_distrusting_cap2_trad_pt_final.pdf >. 

SELWYN, N. O que entendemos por “educação” e “tecnologia?” In: _____. Education and Technology: key issues and debates. Edição para Kindle. Londres: Bloomsbury, 2011. Tradução: Giselle Ferreira. Disponível em: < https://ticpe.files.wordpress.com/2016/12/neil_selwyn_keyquestions_cap1_trad_pt_final1.pdf >

Bibliografia complementar (em expansão)

BIESTA, G. A educação e a questão do ser humano. In:_____. Para além da aprendizagem: educação democrática para um futuro humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013b.

BARRETO, R. G.; MAGALHÃES, L. K. C. Tecnologia singular, sentidos plurais. Instrumento, v. 13, n. 2, p. 11-22, 2011. Disponível em: < https://instrumento.ufjf.emnuvens.com.br/revistainstrumento/article/view/1596/1112 >. Acesso em 16 ago. 2016.

CRUZ, E. G. Las metáforas de internet. Barcelona: Editorial UOC, 2007.

CUBAN, L. Oversold and underused. Computers in the classroom. Cambridge; Londres: Harvard University Press, 2001.

LINS, M. J . S. C. Educação bancária: uma questão filosófica de aprendizagem. Educação e Cultura Contemporânea, v. 8, n. 16, 2011. Disponível em: < http://periodicos.estacio.br/index.php/reeduc/article/viewArticle/168 >. Acesso em: 16 ago. 2016.

RUDIGER, F. Teorias da Cibercultura. Perspectivas, questões e autores. Porto Alegre: Ed. Sulina, 2011.

 

 

 

Tradução 2: “A tecnologia educacional como ideologia”, de Neil Selwyn

f3836Complementando nosso “pacote de fim de ano”  🙂  , circulamos agora a segunda tradução de texto do sociólogo da Educação e Tecnologia britânico Neil Selwyn:  o capítulo 2 de Distrusting Educational Technology: critical questions for changing times (Desconfiando da Tecnologia Educacional. Londres: Routledge, 2014 – também disponível para Kindle), intitulado “Educational Technology as ideology”, em português, “Tecnologia educacional como ideologia“. Eis uma tradução da apresentação do livro:

Desconfiando da Tecnologia Educacional explora criticamente o consenso otimista que envolve o uso da tecnologia digital na educação. A partir de uma variedade de perspectivas teóricas e empíricas, o livro mostra como as formas aparentemente neutras da tecnologia educacional têm, de fato, servido para alinhar a oferta e as práticas educacionais a valores neoliberais, desgastando a natureza da educação como um bem público e direcionando-a às tendências individualistas do século XXI. Questionando amplamente as dimensões ideológicas da tecnologia educacional, este livro examina, em detalhes, tipos específicos de tecnologia educacional atualmente em uso na educação, incluindo a educação virtual, cursos “abertos”, jogos digitais e mídias sociais. Conclui com recomendações específicas na direção de formas mais justas de tecnologia educacional. Leitura ideal para qualquer pessoa interessada na natureza em rápida transformação da educação contemporânea, Desconfiando da Tecnologia Educacional constitui uma crítica ambiciosa e muito necessária.

O capítulo 2 analisa (como o texto compartilhado anteriormente, de forma quase “didática”) várias concepções de “ideologia”, de forma a construir uma base para a discussão de Educação e Tecnologia como uma área caracterizada por conflitos e tensões de natureza fortemente política, mas que tendem a ser ignorados. Em outras palavras: o capítulo oferece um uma discussão aprofundada e muitíssimo bem argumentada em oposição à ideia de que a tecnologia é neutra.

Trata-se, aqui, de um texto bem mais denso do que o anterior (em parte, devido à complexidade da discussão sobre o tema central, “ideologia”), mas que articula as bases propostas na apresentação do livro. Os capítulos subsequentes exploram o que, de fato, consiste em ilustrações, exemplos específicos de “gêneros da tecnologia educacional” atual, conforme Selwyn explica no final do capítulo inicial: “virtual”, “aberta”, “jogos” e “social”. Vale analisar, também, a lista de referências, que inclui muitas possibilidades interessantes de outras leituras.

Desejamos boas leituras a todos – e fiquem por aqui, pois, mais tarde, circularemos novidades sobre nosso e-book anual!

Clique aqui para baixar “Tecnologia Educacional como ideologia“, de Neil Selwyn.

Clique aqui para acessar o texto que disponibilizamos ontem, “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’?“, do mesmo autor.

Tradução 1: “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’?”, de Neil Selwyn

f3836Na sequência do anúncio feito em postagem de ontem, compartilhamos agora o primeiro texto prometido, do sociólogo da Educação e Tecnologia britânico Neil Selwyn: o capítulo 1 do livro Education and Technology: key issues and debates (Londres: Routledge, 2011 – recentemente disponibilizado em sua segunda edição)Em tradução, eis a apresentação sucinta do livro:

A tecnologia digital está no coração da oferta educacional contemporânea. Este livro considera aspectos-chave da área e discute questões fundamentais – ainda que quase nunca verbalizadas – pertinentes ao uso crescente de tecnologias na educação. Focaliza aspectos sociais e técnicos dessas questões, reflete cuidadosamente sobre as pessoas, práticas, processos e estruturas envolvidas no uso de tecnologias na educação, e considera uma gama de debates e controvérsias correntes. A tecnologia substituirá a escola ou a universidade? A tecnologia substituirá o professor? O que realmente sabemos a respeito da relação entre aprendizagem e tecnologia? A tecnologia torna a aprendizagem mais justa? A tecnologia pode apoiar a resolução dos muitos problemas e desigualdades educacionais que confrontam pessoas ao redor do mundo? Qual o futuro da tecnologia e educação? Neil Selwyn lança um olhar crítico a alguns dos debates centrais sobre as tecnologias digitais na educação. O volume inclui questões de estudo e listas anotadas de leituras recomendadas, bem como um Website com sugestões de fontes e recursos complementares.

O capítulo traduzido é intitulado “What do we mean by ‘education’ and ‘technology’?”, em português, “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’“?.  Nesse capítulo, o autor examina diferentes concepções de “educação” e “tecnologia” de forma quase “didática”, lançando as bases para a apresentação de uma concepção mais abrangente de tecnologia educacional. Concebendo “tecnologia” de forma que engloba atores, relações, práticas e contextos, além de artefatos, é possível conduzir-se análises que revelam questionamentos bem mais interessantes e profundos do que as questões meramente instrumentais associadas ao “uso” de artefatos digitais em situações educacionais.

É interessante notar a consistência entre a concepção de “tecnologia” trazida em um post passado (uma tradução que fiquei devendo, mas que, um dia, terminarei) e a proposta de Selwyn, apesar dos autores (aparentemente) terem se apoiado em fontes bastante diferentes.

Nossa escolha em trabalhar com esse capítulo deve-se, além daquilo que percebemos como um “didatismo”, à sua natureza de “síntese situada”: ideias complexas de várias áreas são articuladas e situadas no contexto da Educação, que nem sempre é o caso em textos especialistas (da Filosofia da Técnica, por exemplo, que são bem menos acessíveis a leitores não especializados). A lista de referências utilizada é riquíssima – além de textos já considerados “clássicos” (como a trilogia A Era da Informação de Castells), engloba muitos outros autores que permanecem, como Selwyn, pouco divulgados por aqui.

Paro por aqui, mas volto amanhã com o segundo texto – até lá, boa leitura!

Clique aqui para baixar o “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’“?, de Neil Selwyn.

Educação e tecnologia em perspectiva crítica: traduções de textos de Neil Selwyn chegando!

Com enorme satisfação, compartilharemos, nos próximos dias, traduções para o português de dois textos excelentes do sociólogo da Educação e Tecnologia Neil Selwyn, professor titular na Universidade de Monash, em Melbourne, na Austrália.  Neil é um dos autores mais interessantes na área da Educação e Tecnologia no idioma inglês (seu trabalho já foi mencionado em algumas postagens passadas), de modo que é com grande alegria que disponibilizaremos aqui uma pequena amostra de sua produção (recomendadíssima, aliás) como material para “degustação” e difusão entre leitores e estudiosos lusófonos interessados na área.

Ainda que a escrita de Neil seja incrivelmente lúcida e “fluida”, e ainda que seus livros sejam apresentados como livros-texto destinados a um público não especializado, o autor articula ideias complexas de áreas como a Filosofia e a Sociologia e incorpora muitos neologismos e “regionalismos” (alguma linguagem coloquial), tornando os textos de difícil compreensão para quem não tem uma fluência mínima no idioma. Assim, com o seu aval, preparei traduções para usarmos na disciplina que ministramos no semestre que se encerra (2016.2), Educação e Tecnologia: perspectivas críticas (assunto para outro post!), traduções que circularemos aqui em versão aprimorada e formatada para leitura em e-readers.

Neil defende uma posição inteiramente consistente com as formas de pensar que temos construído coletivamente no grupo TICPE, sintetizadas em termos de uma demanda por maior contextualização e historicidade na discussões sobre a relação entre educação e tecnologia. Em primeiro lugar está a ideia de que é essencial que estejamos atentos à linguagem utilizada nas discussões sobre Educação e Tecnologia, posição também defendida por Neil, por exemplo, neste artigo. Além disso, sentimos um forte incômodo com o uso indiscriminado de categorias macro (como “nativos digitais” – assunto de um post passado), em particular, na ausência de recurso à empiria, como vê-se no gênero “futurologia”, que parece estar sempre a descrever um mundo que “poderia ser” como se fosse o mundo “que é”. Neil aborda tais questionamentos de forma acessível, direta e sempre bem fundamentada em uma ampla gama de literatura acadêmica pertinente e dados empíricos.

Os capítulos são relativamente longos, e a tradução foi trabalhosa (e, como sempre, permanece incompleta no sentido em que detalhes sempre nos escapam, independentemente de quantos “pares de olhos” se debrucem em revisões), então, para nós, faz todo sentido compartilhar os textos com colegas e estudantes para além do nosso PPGE. Esperamos que os textos circulem amplamente e venham a apoiar discussões tão interessantes quanto as que temos conduzido com os nossos alunos.

As traduções serão disponibilizadas também em meu perfil na plataforma academia.edu, site onde Neil mantém um perfil que utiliza para circular parte de sua produção.

Volto amanhã com o primeiro texto, mas, deixo com vocês uma curta entrevista com Neil, realizada em um evento organizado em 2016 pelo Centro de Estudios Fundación Ceibal, no Uruguai. Sua fala (com legendas em castelhano), apresentada em duas partes, aborda temáticas que constituem alguns dos rótulos mais comentados atualmente na Tecnologia Educacional, incluindo Analítica da Aprendizagem (Learning Analytics) e BYOD (Bring Your Own Device – Traga Seu Próprio Artefato), mas seus questionamentos, como sempre, são estruturados em torno de temas e problemas educacionais. 

Parte 1

Parte 2

 

Criticar (com fundamentação) é preciso (slides do SENAED 2015)

CabeçalhoEstão abaixo compartilhados os slides que utilizamos em nossas respectivas apresentações no 11o SENAED, promovido pela ABED. Ambos são arquivos em formato pdf.

Veja que a imagem acima foi retirada da apresentação do Prof. Alexandre, que contém uma excelente lista de leituras integrantes de um corpo de literatura que está gradativamente a surgir oferecendo narrativas críticas sobre a relação entre as TIC e a Educação (infelizmente apenas em inglês, até onde sabemos). Esses trabalhos oferecem discussões embasadas em empiria e fundamentadas em teoria, reconhecendo, assim, a historicidade da relação TIC-Edu e a importância da contingência. Fortemente recomendados!

Clique aqui para baixar os slides do Prof. Alexandre Rosado.

Clique aqui para baixar os slides da Profa. Giselle Ferreira.

Clique aqui para acessar o site do evento.

Clique aqui para visualizar a programação do evento.

Tecnologia, educação e Gould: “mind the bullshit” (divagações de uma tarde de domingo)

Já faz algum tempo que este blog tem sido usado mais como quadro de avisos do que da forma que originalmente planejáramos: um espaço de compartilhamento e discussão de questões interessantes e relevantes. Obviamente, tempo (falta de?) é uma questão (explicação) fundamental, mas, passou-me hoje mais cedo pela newsfeed do Facebook uma postagem sobre “ensino de música a distância” que me deixou com uma enorme necessidade de encontrar formas de redirecionar os pensamentos. Fiquei a imaginar, em múltiplas e coloridas distopias, como poderia ter sido a formação de Glenn Gould com base em trocas de pfd’s e mp3’s e encontros via Skype... (pensei não somente na formação do instrumentista, mas, também, na formação do “mito Gould”, incluindo a criação de algumas veneradas gravações feitas por ele). Comecei, então, a esboçar este post, enquanto fazia anotações que podem vir (talvez?) a se tornar uma resenha.

Obviamente, não sou avessa a “inovações”, e não é a dita questão da “mediação tecnológica” que me preocupa (se bem que, realmente, há problemas bem práticos – por exemplo, banda?), especificamente, mas, sim, me parece estranha a ideia de que se pode “ensinar música” com os artefatos mencionados. De fato, estou me referindo, em particular, à formação do instrumentista, que também requer processos de disciplina do corpo. A ideia me parece, simplesmente, ludicrous (não consigo pensar em uma boa palavra em português no momento, perdoem-me). Resolvi buscar alguma outra coisa para me ocupar os pensamentos, e passei a refletir sobre o último número da revista Learning, Media and Technologydedicado a discussões críticas acerca da Educational Technology (para nós, seria TIC na Educação, não Tecnologia Educacional, exatamente – mas isso é outro assunto!).

Em particular, foi o Editorial de Neil Selwyn que me veio à mente: “Tomando cuidado com a nossa linguagem: porque a área da tecnologia na educação está cheia de baboseiras… e o que pode ser feito a respeito disso”. No original, o autor usa o termo coloquial bullshit (não exatamente anátema, mas uma palavra chula), traduzido no Google Translate como “treta”, que não usamos comumente no Brasil (que eu saiba – disclaimer para que meus alunos depois não reclamem que estou generalizando sem fundamentação!) e que, em Portugal, tem conotações bem diferentes. Que seja como for – com essas considerações, consegui, divertindo-me, (mais ou menos) neutralizar os efeitos desagradáveis (ou seja, uma grande irritação) que me causaram as imagens de Gould, ainda criança, tentando comunicar-se por chat com seu tutor instrumental (ou mesmo com seu engenheiro de som) acerca da execução de alguma passagem das Variações Goldberg

O texto de Selwyn é mais uma pérola de um autor que oferece em seus trabalhos uma combinação de aprofundamento teórico com elementos de linguagem coloquial (incluindo alguns neologismos, por vezes, até engraçados), tornando-os (penso eu) mais acessíveis do que alguns dos textos de cunho mais filosófico que temos utilizado na TICPE. Infelizmente, conheço apenas dois artigos do autor que foram traduzidos para o nosso idioma: O uso das TIC na educação e promoção de inclusão social: uma perspectiva crítica do Reino Unido (publicado na revista Educação e Sociedade, 2008) e Em defesa da diferença digital: uma abordagem crítica sobre os desafios da Web 2.0 (não sei detalhes sobre essa tradução, mas está disponível no espaço do autor no academia.edu, com data de 2011). Selwyn tem, também, vários livros excelentes, mas, que eu saiba, apenas Telling Tales on Technology: qualitative studies of technology and education (2002) está livremente disponível.

Adotando uma perspectiva discursivo-crítica à área, Selwyn, em essência, defende a necessidade de maior atenção a questões relativas à linguagem. O texto constitui uma crítica veemente, ainda que marcada por um certo senso de humor (irônico), à retórica utilizada na esmagadora maioria das discussões sobre os usos das TIC na educação. Trazendo elementos da discussão de Harry Frankfurt em On Bullshit (2005 – veja, aqui, um artigo relevante), Selwyn sugere, simplesmente, que “muito do que se diz sobre educação e tecnologia pode ser classificado como bullshit“. Na construção de seu argumento, o autor critica as hipérboles (exageros), a ausência de fundamentação teórico-reflexiva (as visões excessivamente otimistas ou prometeicas da tecnologia) e a frequente falta de apoio na empiria, que contribuem para a naturalização e universalização de ideias que, de fato, mal escondem posicionamentos ideológicos passíveis de duras críticas.

Dessa forma, defende a noção de que a terminologia da área tende a construir formas específicas de pensar a respeito da presença das TIC na educação. Um exemplo que acho particularmente interessante, dentre outros mencionados, é o uso frequente de termos relativos a “aprendizagem” nos rótulos da EdTech – “Ambiente Virtual de Aprendizagem”, “Aprendizagem conectada”, “Sistemas inteligentes de tutoria”. Tais termos, segundo Selwyn, “implicam um propósito inequívoco para as tecnologias digitais na educação, ou seja, servir como uma ferramenta na busca da aprendizagem” com total descaso pela contingência (algo que muito me incomoda na literatura do gênero “futurologia” – no post de ontem cheguei a mencionar a questão do uso de linguagem alarmista e cataclísmica na defesa dos “discursos da educação quebrada“).

Traçando um paralelo com a discussão da noção de “esquecimento organizado” de Henry Giroux em The violence of organized forgetting (2014), que focaliza questões estadunidenses, Selwyn sugere que:

as formas nas quais a tecnologia digital é discutida nos círculos educacionais certamente racionalizam aspectos superficiais, efêmeros e, frequentemente, banais da temática às custas de um engajamento continuado com suas políticas confusas. Há, também, linguagem que rotineiramente normaliza questões de opressão, desigualdade e injustiça. Há pouco – se é que há – reconhecimento de diferenças de classe, etnia, gênero, e outras atribuições sociais. Da mesma forma, há linguagem que oferece compreensão parca da economia política de um mercado de tecnologia educacional avaliado em mais de 5 trilhões de dólares. Quando abordada de qualquer uma dessas perspectivas, a área das TIC na educação pode ser criticada, de modo justificado, como um sítio de esquecimento organizado.

No original:

the ways that digital technology is talked about within educational circles certainly extenuate superficial, ephemeral and often banal aspects of the topic at the expense of any sustained engagement with its messy politics. This is also language that routinely normalizes matters of oppression, inequality and injustice. There is little if any acknowledgement of differences of class, race, gender, disability or other social ascription. Similarly, this is language that offers scant insight into the political economy of an education technology marketplace reckoned to be worth in excess of $5 trillion. When seen from any of these perspectives, then education and technology can be justifiably criticized as a site of organized forgetting.

Os outros textos do mesmo número da revista são igualmente veementes em suas respectivas críticas a tópicos, temáticas e discursos em torno de rótulos específicos da EdTech. Em particular, recomendo o artigo de Lesley Gourlay, “Educação aberta como um ‘heterotopia do desejo'”. Neste texto, a crítica parte das obras de Latour e de Foucault, tendo a “Educação Aberta” como tópico (alvo!) e vindo ao encontro de algumas das minhas reflexões sobre mais este rótulo da EdTech, que iniciei a partir da publicação deste trabalho. Veja o resumo (em tradução que precisaria ser muito melhorada):

O movimento da “abertura” na educação tem se posicionado como inerentemente democrático, radical, igualitário e crítico em relação aos poderosos sentinelas (gatekeepers) da aprendizagem. Ao passo que “abertura” é, frequentemente, posicionada como uma crítica, defenderei que os discursos correntes – ainda que pareçam opor as operações de poder em larga escala – de fato reforçam uma fantasia de um aparato institucional panóptico e todo-poderoso. O sujeito humano é idealizado como capaz de gerar conhecimento de ordem superior sem recurso à expertise, ao cânone do conhecimento ou ao desenvolvimento apoiado (scaffolding). Isso destaca uma interente contradição entre esse movimento e a teoria educacional crítica, que se opõe a narrativas de futuros utópicos possíveis oferecendo contrapontos teóricos e empiria que revelam diversidade e complexidade, e resistindo a tentativas de definição, tipologia e imutabilidade. O argumento será substanciado com referência a uma estudo qualitativo longitudinal multimodal conduzido ao longo de um ano com estudantes acerca de seu envolvimento cotidiano com as tecnologias na Educação Superior, o qual foi combinado com um estudo mais curto que focalizou o engajamento de pessoal acadêmico. Partindo de perspectivas sociomateriais, concluirei que as reivindicações de “radicalismo” do movimento da “abertura” em educação pode, de fato, servir para reforçar e não desafiar o pensamento utópico, fantasias do humano, categorias sociais monolíticas, imutabilidade e poder, e, assim, podem indicar uma ´heterotopia do desejo´.

Em tempo: a revista é excelente, ainda que não ofereça acesso livre (e, ironicamente, não tenha Qualis/CAPES), então recomendo a leitura (avisando, no entanto, que a leitura demanda um conhecimento, no mínimo, razoável, do inglês, pois os textos tendem a ser relativamente complexos). Lembro que, na falta de acesso à publicação, uma alternativa muito boa é entrar em contato diretamente com o(s) autor(es) e pedir uma preprint (cópia não formatada ou versão preliminar da publicação, que é o tipo de texto sendo compartilhado em repositórios institucionais e/ou em espaços pessoais dos autores na Web).

Atualização em 31/05/15 🙂 : descobri, durante a semana que se passou desde que publiquei esse post, que “treta” está, sim, no vocabulário nacional. Segundo minha filha (que tem 17 anos), significa “confusão” – e acompanhando os eventos da semana, vi a palavra em dois ou três postagens sobre a “treta” que se passou na UERJ. As palavras estão, realmente, ao vento – a linguagem é viva, se transforma, e o dicionário pode, no máximo, correr atrás (ou olhar para trás?), em busca de significados e definições que serão sempre, na melhor da hipótese, localizadas e provisórias…

Internacionalização, de novo (por Tarso Mazzotti)

Internacionalização, de novo

Por Tarso Mazzotti 

Há os que se opõem à internacionalização das pesquisas na área Educação. Parece-me ser um dos muitos enganos correntes. Por quê? Porque as teorias utilizadas raramente foram produzidas no Brasil. Aliás, o próprio nome da área (Educação) expressa seu uso em inglês, quando antes utilizávamos Pedagogia, este também originados no exterior. Por que não utilizamos Ciências da Educação para nomear a área? Porque, neste caso, a filosofia fica de fora… No entanto, Ciências da Educação é mais comum no exterior, inclusive em Portugal.

A recusa do reconhecimento das pesquisas produzidas em outros países, em particular nos Estado Unidos da América, exprime uma tomada de posição ideológica, que tem por núcleo a identificação daquele com o Imperialismo. Mas essa recusa pode ser mais abrangente, pois há comitês editoriais que rejeitam trabalhos por não citarem autores nacionais, ou utilizarem autores muito antigos, como Aristóteles, e isto no campo da Filosofia da Educação.

Parece-me que a recusa da internacionalização tem uma origem em uma atitude, uma conduta recorrente, a recusa da erudição. Essa atitude (os gregos denominavam ethos. Ih! Isto cheira erudição, logo…) parece orientar-se pelo seguinte enunciado: apenas o atual é valioso. Por isso, no caso da Educação, alguns problemas considerados nossos contemporâneos apresentam-se como novidades, quando foram tratados cuidadosamente por autores antigos. Exemplo? A educabilidade. Educabilidade? A qualidade educativa de algo, como um conjunto de conhecimentos. Os defensores o trivium e do quadrivium consideravam que as disciplinas escolares iniciais, as do ensino básico, seriam as que viabilizam o desenvolvimento da pessoa, tornando-as melhores, mais capazes no domínio de seus processos de pensamento, de argumentação, o que implica dominar a língua (gramática, retórica e dialética ou lógica). Depois seria preciso dominar os instrumentos intelectuais para tratarem das coisas do mundo (geometria, aritmética, astrologia e harmonia ou música). Essa educação liberal, por não servir os outros, predominou no Ocidente do século III até o XVII-XVIII, embora existam escolas contemporâneas que a mantenham (cf, na Internet). O que isso tem a ver com o presente? O problema central: quais as disciplinas efetivamente melhoram as pessoas?

Como se ensinava? Por meio da imitação, da mimesis, tanto no caso da formação para se tornar um oficial, artesão, profissional quanto na educação liberal. Pode-se dizer que os antigos eram escolanovistas ou progressivistas? Seria um anacronismo, o correto é inverter a comparação, pois o movimento da escola nova retomou, em parte, o que os humanistas dos séculos XVI e XVII faziam.

Nada disso aparece quando se opera com slogans como “formar o cidadão crítico e participativo”, pois há excesso de significados que cada qual se apropria como bem entende. Fiquemos com o termo crítico. O que significa? Na linguagem técnica da filosofia significa analisar. Logo, é preciso que as pessoas dominem os meios ou instrumentos de análise. Quais são eles? Os esquemas argumentativos codificados ao longo de 2.700 anos.

O que isto tem a ver com a internacionalização? Nada, caso seu significado seja manter relações sociais e acadêmicas com estrangeiros. Tudo, caso se entenda que o conhecimento confiável não tem pátria e nem está datado. Ainda voltarei a isto.