TIC e Pedagogia

Enquanto o e-book não chega… entrevista com o Prof. Ralph Bannell

Estamos a todo o vapor nos últimos estágios de preparação de nosso e-book, sobre o qual contamos um pouco neste post do ano passado – a trabalheira tem sido enorme (pesquisadores e professores definitivamente não têm férias…), mas estamos muitíssimo satisfeitos com a forma que o volume final tomou.

Em breve, disponibilizaremos um e-book inteiramente bilíngue (português-inglês) com oito capítulos escritos, especialmente para nós, por especialistas de vários países e outros três veiculando textos a serem publicados em nosso idioma pela primeira vez. Há, ainda, uma deliciosa “cereja no bolo”: o belo prefácio escrito pelo Prof. Ralph Ings Bannell, diretor do Departamento de Educação da PUC-Rio, e um dos autores do livro Educação no século XXI: cognição, tecnologia e aprendizagens (Vozes, 2016).

Em seu prefácio, o Prof. Ralph mobiliza ideias e conceitos de diferentes subáreas da Filosofia para pensarmos questões relativas à presença de artefatos digitais na educação de forma aprofundada e contextualizada. Aguarde!

Enquanto o e-book não chega, vale assistir a entrevista concedida pelo Prof. à TV da Faculdade Artur Sá Earp Neto – Faculdade de Medicina de Petrópolis em fevereiro deste ano. Na entrevista, o professor discute, em um contexto histórico-filosófico, algumas das questões que emergem na interface educação-tecnologia, e traz alguns dos assuntos que explora mais detidamente em sua contribuição ao nosso e-book.

Por fim: fique atento à publicação do e-book, prevista para início de abril deste ano,  na página Nossas produções!

“Inovação” e práticas docentes no ES – defesa de tese

20151209_102126Fechando o semestre, tivemos mais uma instigante defesa na TICPE. Focalizada em questões relativas ao uso de tecnologias na docência em nível superior, Rejane Cunha Freitas defendeu a tese intitulada Práticas docentes no Ensino Superior e as Tecnologias de Informação e Comunicação: um estudo de caso.

Tomando como campo uma instituição de ES privada, Rejane conduziu um estudo de caso fundamentado em literatura de vertente crítica da Tecnologia Educacional, com o objetivo geral de “explorar as concepções e práticas de ensino com as TIC no ES”. Combinando técnicas quantitativas (para identificação de um perfil geral dos docentes da instituição) e qualitativas (entrevistas semi-estruturadas e observação participante), a pesquisa analisou concepções dos professores acerca da formação e da prática docente no ES.

Em especial, a tese analisa a importantíssima temática da “inovação” com bastante sensatez: por um lado, questiona formas maniqueístas de pensar, e, por outro, “De modo a evitar o processo de culpabilização dos docentes (…) considera as muitas dificuldades próprias da profissão, bem como possíveis especificidades do contexto analisado.”

A banca contou com a participação dos Profs. Laélia Moreira e Márcio Lemgruber, do PPGE/UNESA, Sônia Mendes, da UERJ/FEBF e Alexandre Rosado, do INES/DESU. Rejane recebeu elogios unânimes da banca em relação ao seu cuidadoso detalhamento da metodologia, que inclui uma discussão sobre questões de reflexividade na pesquisa, à sensibilidade e cuidado que demonstrou no tratamento dos dados, criteriosamente descritos e analisados, bem como ao teor geral da discussão teórica e sua articulação com os dados.

Banca_Rejane_Freitas

Da esquerda para a direita: Alexandre, Sônia, Laélia, Rejane, Giselle & Márcio

Assim como o trabalho de Regina Almeida, focalizado em questões relativas ao letramento informacional e defendido há algumas semanas atrás, a tese de Rejane será disponibilizada on-line em breve; deixo, então, por hora, o resumo:

Este estudo parte de um questionamento acerca dos discursos por mudança no Ensino Superior (ES). Especificamente, discute-se a natureza das alegações que professam uma revolução no ES, que são sustentadas pela defesa das inovações e pela crença de que as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) favorecem um processo de aprendizagem sem esforço, para atuação profissional em um futuro incerto. O estudo baseia-se em uma investigação que teve como objetivo geral explorar as concepções e práticas de ensino com as TIC no ES. As seguintes questões foram respondidas por meio de um estudo de caso conduzido em uma instituição de ES privada utilizando métodos mistos: (a) Quais influências, formações e experiências dos professores contribuem na caracterização que fazem de suas próprias práticas de ensino?; (b) De que formas os docentes (re)pensam a integração de recursos das TIC em suas práticas de ensino?; (c) Quais as concepções, atitudes e dificuldades dos professores em relação ao uso das TIC em sala de aula?; (d) Quais concepções sobre “inovação” emergem do campo na visão dos professores?. Os dados coletados em 70 questionários foram tratados estatisticamente, permitindo a identificação de um perfil geral dos docentes da instituição. Temáticas específicas foram esmiuçadas com base em 11 entrevistas semiestruturadas e observação participante conduzida entre 2013 e 2015, bem como uma intervenção pontual que tomou a forma de um minicurso de 6 horas oferecido em fevereiro de 2015. Transcrições e anotações de campo foram submetidas a uma análise de conteúdo temática. A fundamentação teórica adotada inclui literatura acerca do ES e textos críticos da Tecnologia Educacional, em particular, de Raquel Goulart Barreto e Neil Selwyn. Os achados indicam que, na melhor das hipóteses, tem havido um impacto bem modesto dessas tecnologias nas estratégias de ensino comumente utilizadas, e a integração de novos artefatos tende a ser feita de modo a possibilitar a continuidade de práticas pedagógicas já estabelecidas. Apesar das falas dos professores não indicarem, explicitamente, forte resistência ao uso das TIC, há indícios de resistência à mudança pedagógica, em parte explicáveis por contingências tais como falta de tempo e, talvez, falta de uma formação específica para a docência no ES que desenvolva sujeitos críticos e reflexivos. Por outro lado, as falas representam ações de resistência pontuais aos discursos corporativos e dispositivos técnicos a eles associados, que impingem diretamente na autonomia profissional dos docentes, sugerindo sua enorme adaptabilidade e comprometimento com seus alunos, seu trabalho e com a própria instituição. Assim, o trabalho contribui para preencher a enorme lacuna referente a questões mais sutis acerca da relação entre as TIC e as práticas docentes no ES, reiterando a necessidade de estudos empíricos que possam, com base na contingência, desafiar os discursos generalistas e essencialmente doutrinários que predominam na área, discursos marcados por um maniqueísmo que opõe, de maneira simplista, “resistência” a “adesão” às TIC.

Rejane preparou uma bela apresentação em Prezi, que você pode acessar clicando aqui.

Por fim, registro, mais uma vez, meus parabéns à Rejane, pela qualidade do seu trabalho e por sua garra, tenacidade e profissionalismo, que a possibilitaram seguir adiante, mesmo em momentos difíceis!

 

Livro sobre usos do Facebook na Educação disponível no Scielo

Acaba de ser disponibilizado no Scielo Livros o volume Facebook e educação: publicar, curtir, compartilhar, organizado por Edméa Santos e Cristiane Porto e publicado pela Editora da Universidade Estadual da Paraíba. A obra, lançada em impresso no ano passado, está agora disponível aberta e livremente, e pode ser baixada na íntegra em formato pdf ou ePub, ou em capítulos.

Organizado em duas partes, o livro reúne contribuições de pesquisadores e especialistas do Brasil e de Portugal, que examinam diferentes aspectos da integração desta plataforma de redes sociais em contextos educacionais. Inclui um capítulo escrito por mim e pela nossa saudosa Estrella Bohadana.

Ficam aqui os parabéns da TICPE às colegas organizadoras por mais uma bela conquista!

Clique aqui para baixar o livro completo em pdf.

Clique aqui para baixar o livro completo em ePub.

Clique aqui para baixar o livro em capítulos.

Clique aqui para baixar o capítulo Possibilidades e desafios do uso do Facebook na educação: três eixos temáticos”, por Giselle Ferreira e Estrella Bohadana.

Teses defendidas na TICPE

Entre 2014 e 2015, tivemos as defesas de duas instigantes teses na linha, então aproveitando que ontem retomei o Diálogos, compartilho os detalhes.

Em final de julho deste ano, defendeu sua tese Ambientes Pessoais de Aprendizagem em Escola de Ensino Médio meu doutorando Rafael Castiglione. A pesquisa do Rafael

teve como objetivo geral investigar o uso das TIC, complementar ao ensino médio presencial, com o propósito de estimular o desenvolvimento da autonomia dos alunos, tendo como base a concepção dos Ambientes Pessoais de Aprendizagem (APA). Deste objetivo geral foram elaborados os objetivos específicos: (a) Identificar as práticas educacionais emergentes que se utilizam de APA na educação formal; (b) Analisar os usos de ferramentas da Web pelos alunos participantes da pesquisa, identificando suas preferências, propósitos e contextos de utilização; (c) Analisar as possibilidades e desafios associados à integração da ideia de APA na educação formal. Tais objetivos foram investigados em um trabalho de Pesquisa-ação, sendo a coleta de dados realizada a partir de entrevistas, aplicação de questionários e observação de campo. O processo de análise dos dados foi quantitativo e qualitativo, sendo neste último utilizado como método a análise de conteúdo. Para dar sustentação à discussão, foram incorporadas considerações pedagógicas, tendo por base contribuições teóricas da aprendizagem, da autonomia, e das TIC, em particular, os Ambientes Pessoais de Aprendizagem. O estudo foi realizado no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro, no curso técnico de informática integrado ao ensino médio, nas disciplinas “Programação para Web” e “Modelagem de dados”, com a participação de 108 alunos dos três anos escolares, organizados em quatro grupos. Os principais achados foram: (a) confirmação da presença da escola e do professor como importantes atores no processo de aprendizagem; (b) o domínio e a facilidade de migração de ferramentas ligadas à interação social e recepção de informação por parte dos alunos; (c) a possibilidade de construção de uma sala de aula mais autônoma e integrada aos espaços não formais de ensino; e (d) a dificuldade dos alunos em expor e discutir seus pontos de vista, refletida na baixa produção colaborativa e compartilhamento de informações. A experiência sugere a necessidade de investigações futuras acerca do melhor momento da trajetória escolar para a incorporação de processos de construção coletiva do conhecimento apoiadas pelas TIC como uma rede de conexões.

As palavras-chave do trabalho são: Ambientes Pessoais de Aprendizagem; Ensino Médio Integrado; Aprendizagem centrada no aluno; Autonomia

No final de 2014, Mirian Maia do Amaral, orientanda do Prof. Márcio Lemgruber, defendeu seu trabalho intitulado Autorias docente e discente: pilares de sustentabilidade na produção textual e imagética em redes educativas presenciais e on-line. Eis o resumo:

Na contemporaneidade, com a emersão de uma diversidade de modelos autorais e novas formas de colaboração e criação, uma questão desafia os pesquisadores: como autorias coletivas e, ao mesmo tempo singularizantes, podem ser produzidas sob as formas textuais e imagéticas e materializadas em redes educativas, presencial e online? Para responder a essa questão, objetivamos, nessa Tese, identificar e formular indicadores que potencializam e promovem o surgimento de autorias docente e discente, na tessitura do conhecimento, em rede. Amparados pelo paradigma da complexidade, trabalhamos, no âmbito da disciplina eletiva Cotidianos e Currículos: uma prática social em formação, integrante do curso de Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, na perspectiva da pesquisa-formação multirreferencial, e com a ideia de pesquisador implicado com seu campo de pesquisa. Durante três semestres, atuamos em quatro turmas, junto a estudantes provenientes de diferentes tipos de licenciaturas. Dialogamos, também, com os pressupostos das pesquisas nos/dos/com os cotidianos, apoiados no uso intensivo de dispositivos materiais e intelectuais, como diário de itinerâncias, textos científicos, ambientes virtuais de aprendizagem e suas interfaces, oficinas de histórias em quadrinhos e vídeos, entre outros. A partir de atos de currículo, instituímos estratégias pedagógicas que nos levaram a ―pistas‖ de autorias, que apontaram para dimensões integrativas, formativas e tecnológicas, possibilitando-nos identificar um conjunto de indicadores a elas relacionados. Esses indicadores, caracterizados pelas ações engendradas ao longo do processo de aprendizagem, atuaram como ―disparadores‖, potencializando o surgimento dessas autorias, sob diferentes formas: na reprodução textual; no planejamento da sintaxe produtiva; na transposição de gêneros do discurso; no uso da oralidade nos meios virtuais; em processos interativos; na cultura remix; e nos recursos argumentativos e linguísticos. A conclusão a que chegamos é a de que, em tempos de cibercultura, a noção de autoria se torna cada vez mais coletiva e pulverizada. Somos todos autores, em potencial, na medida em que ancoramos nossos dizeres, em nossas memórias e nos dizeres alheios, assumindo uma posição responsiva e responsável pelo que expressamos. Nessa perspectiva, o uso de indicadores privilegia processos colaborativos, interativos e dialógicos potencializando o surgimento de autorias em diferentes níveis.

As palavras-chave do trabalho da Mirian são:Cibercultura; Redes educativas; Formação de professores; Autorias.

Há mais defesas de teses previstas para o final de 2015 – compartilharei os detalhes aqui oportunamente!

Abertura de processo de seleção de docente para a TICPE

Está aberto o processo de seleção de docente para a Linha TICPE do PPGE/UNESA. As inscrições estarão abertas até dia 15 de julho – em breve, o edital será divulgado, também, no site institucional, mas já estamos abertos para receber contatos e documentação dos interessados.

Veja AQUI o edital, aproveitando a visita para conhecer, também, nosso histórico e proposta, nossas disciplinas, nossos projetos e nossas produções.

Sobre “nativos digitais”

Em uma disciplina que estou ministrando neste semestre, na qual utilizo a obra Psicologia da Educação Virtual, organizada por César Coll e colaboradores, chegamos ao momento de discutir o assunto “nativos digitais”. Dentre os múltiplos “rótulos” que circulam na área das TIC na Educação no momento, esse tem recebido cada vez mais destaque na minha lista de pet hates / weasel wordsRessinto-me, obviamente, de ser categorizada como “imigrante digital” :-), que me parece ter conotações bem pejorativas, além de constituir uma generalização infundada, ou seja, “ponto” para as linhas do tipo de pensamento maniqueísta que me incomoda profundamente.

O capítulo 4, “O aluno em ambientes virtuais: condições, perfil e competências”, de Carles Monereo e Juan Ignacio Pozo, sugere que “idade” não é a única dimensão de diferença nas relações entre TIC e seres humanos. Ótimo. Excelente começo. Porém, como os próprios autores admitem, grande parte do capítulo é tomada por especulações acerca das transformações que as tecnologias digitais estão causando (?) na “mente” humana, compreendida segundo uma abordagem que destaca as relações entre “mente” e cultura proposta por Merlin Donald (1991) (veja aqui uma resenha do livro escrita pelo próprio autor).

Como contraponto para apimentar a discussão com provocações em outras direções (sempre para que eu possa destacar a importância de dados empíricos), pegarei emprestado alguns trechos do livro Deconstructing digital natives. Young People, tecnology and new literacies, organizado por Michael Thomas. Compartilho, então, abaixo, uma tradução (como sempre, apressada) do prefácio, escrito por David Buckingham – talvez seja de interesse para além do meu grupo de alunos.

Há duas palavras problemáticas – bem, várias, como sempre, mas vou ficar com estas: generationing affordances. Deixei-as no original, pois são acompanhadas de alguma explicação. A segunda, affordances, é um termo bastante disseminado na EdTech e, quando tiver outro fim de semana para postar divagações, vou ajeitar minhas anotações sobre isso e compartilhar – um dos significados coloquiais é “possibilidade”, mas grande parte da discussão acadêmica que adota a palavra tem ligações com os significados específicos dados a ela por J. J. Gibson em seu artigo The theory of affordances e em trabalhos subsequentes, e há muitas concepções diferentes e conflitantes.

Desconstruindo “nativos digitais” – Prefácio de David Buckingham

A ideia de que há um conflito de gerações de natureza tecnológica ou midiática não é, de forma alguma, nova. Pode-se olhar para trás, para a década de 1960, quando a ideia de uma “geração televisiva” era popularmente utilizada como um modo abreviado de explicar mudanças sociais; há, também, uma longa história de afirmações semelhantes utilizadas em relação a formas anteriores de cultural popular. Tais ideias são uma elemento fundante de um tipo de “pânico moral”, ainda que suscitem, tipicamente, preocupações mais difusas e generalizadas com o impacto da modernidade. A ideia do conflito de gerações integra uma narrativa de transformação e, até mesmo, de ruptura, na qual destroem-se elementos fundamentais de continuidade entre o passado e o presente. Tais argumentos têm um apelo emocional considerável: ao alinhar afirmativas sobre as mídias e tecnologia com ideias sobre a infância e a juventude, proporcionam um poderoso veículo para algumas de nossos maiores esperanças e temores.

A ideia contemporânea de “nativo digital” – bem como formulações relacionadas, tais como a “geração digital” e a “geração net” – geralmente apresentam essa narrativa básica de forma positiva. O problema aqui não é com os nativos digitais em si, mas, sim, com o resto de nós, os “imigrantes digitais” que permanecem, teimosamente, amarrados a mídias mais velhas, sem sintonia com a atualidade. Tais argumentos frequentemente envolvem uma perspectiva utópica da tecnologia – um história fabulosa sobre como a tecnologia libera e empodera os jovens, permitindo que se tornem cidadãos globais e aprendam e comuniquem-se de formas livres e sem restrições.

Apesar de seu apelo popular, os problemas com essa narrativa são bem óbvios, e muitos deles são discutidos pelos colaboradores neste volume, que reúne uma gama de evidência empírica relativa ao assunto. Proponentes do argumento dos nativos digitais tipicamente superestimam os limites e efeitos das mudanças tecnológicas, ignorando elementos de continuidade. Ainda assim, a história da tecnologia sugere que a mudança, por mais rápida que seja, é geralmente incremental e não revolucionária. Apenas raramente, novas tecnologias simplesmente substituem as já existentes; além disso, há interseções e paralelos consideráveis entre mídias “novas” e “velhas”. As tecnologias não surgem do nada: são desenvolvidas, desenhadas e comercializadas em contextos sociais específicos, que refletem fatores econômicos, culturais e sociais mais amplos. As tecnologias têm possibilidades e limites (ou affordances), mas, sozinhas, não produzem mudança social.

O argumento dos nativos digitais também exagera as diferenças entre gerações, subestimando a diversidade entre elas. Muitos ditos nativos digitais não são usuários mais intensivos das mídias digitais do que os ditos imigrante digitais. Não são, de forma alguma, mais fixados nas tecnologias nem particularmente proficientes nelas, como se assume com frequência. Não têm, necessariamente, as habilidades, a competência ou a fluência “natural” a eles atribuída. Muito do que os jovens fazem com a tecnologia digital é mundano e nada espetacular: seus usos são caracterizados não por manifestações dramáticas de inovação e criatividade, mas, sim, por formas relativamente rotineiras de comunicação e obtenção de informação. As crianças da contemporaneidade têm tantos interesses, assuntos e preocupações quanto as crianças de gerações passadas – mesmo que as formas nas quais se manifestem por meio de seu uso da tecnologia seja diferentes.

Basicamente, o argumento dos nativos digitais tende a essencializar as gerações e, no processo, “exoticizar” os jovens, fazendo-os parecer inerentemente estranhos e diferentes. Há um sentimentalismo acerca das crianças e jovens que é familiar, combinado com um tipo de medo do que poderia estar acontecer com esta geração mais jovens. Enquanto parece positiva e comemorativa, essa caracterização dos jovens é, também, estranhamente desdenhosa: assume que o jovem espontaneamente sabe tudo que precisa saber sobre tecnologia, ao invés de ter que esforçar para aprender. Crescer com a tecnologia pode muito bem implicar uma orientação diferente com relação a ela, mas é, certamente, discutível, o quão duradoura será a diferença. Um dos desenvolvimentos mais impressionantes no Reino Unido nos últimos anos tem sido a rápida adoção da Internet entre indivíduos de meia-idade e idosos: ainda que possa haver um atraso entre as gerações, esse pode vir a ser progressivamente menos significativo.

Ao passo que a noção de conflito de gerações reflete persistentes esperanças e medos do futuro, ela também toma formas diferentes em situações culturais e históricas distintas. Pode haver, também, uma dimensão econômica. Poderíamos, certamente, analisar as afirmações de que os nativos digitais são um tipo de campanha de marketing, promulgada por indivíduos e empresas com bens e serviços à venda em um ambiente comercial volátil. Os jovens são, notoriamente, um mercado imprevisível, e o ritmo das mudanças tecnológicas parece estar acelerando. Consultores e especialistas que afirmam ter conhecimento privilegiado de insider deste mercado certamente se encontrarão em forte demanda. A combinação de apreensão, temor e desejos projetados na tecnologia parece ser intoxicante para diretores de empresas – e, de fato, governos – cujos negócios parecem cada vez mais precarizados.

Ainda assim, apesar de tudo isso, o conceito de uma mudança geracional permanece relevante e produtivo. Há um corpo de análise sociológica e histórica onde – por exemplo, na descrição em nível macro, de Karl Mannheim, da construção de gerações – o conceito poderia ser aplicado à transformação tecnológica de forma útil. Há, também, produtivas análises de como constroem-se gerações – e como as pessoas se definem como membros de gerações – em nível micro, de interações cotidianas. Na área de Estudos do Desenvolvimento, tem havido uma utilização considerável da noção de generationing, a ideia de que (tanto jovens quanto adultos) estamos constantemente nos definindo como membros de gerações por meio de performances identitárias variáveis. Esse processo se desenrola, em casa e na escola, também em termos de como as pessoas utilizam a tecnologia, no que elas dizem sobre isso e como a atividade de utilizar a tecnologia é produzida, construída e regulada. Assim, por exemplo, poderíamos considerar como os pais constroem seus filhos como experts em tecnologia, enquanto, simultaneamente, tentam monitorar e regular o que fazem com ela. A tecnologia frequentemente faz um papel complexo e ambivalente nessa construção mútua e continuada das gerações.

No entanto, essa abordagem requer o uso de um conceito de gerações que é mais reflexivo e crítico do que é tipicamente o caso nas discussões populares sobre o uso de tecnologia por jovens. Se desejamos compreender a natureza desigual e complexa da transformação social, bem como o papel da tecnologia nisso, precisamos de investigações mais cuidados e medidas, que prestem muita atenção à textura da experiência vivida. Este livro oportuno oferece uma contribuição significativa aos debates acerca das tecnologias digitais na educação, ressaltando o valor de uma abordagem baseada na pesquisa por meio da apresentação de evidência empírica e discussão de pesquisadores internacionais na área. Se – apesar de seus limites – o debate sobre os “nativos digitais” provocou esse tipo de colaboração e discussão internacional, então, talvez, tenha sido válido.

TICPE na Anpedinha 2014

O PPGE/UNESA terá uma boa representação no 11o Encontro de Pesquisa em Educação da Região Sudeste, que será realizado na Universidade Federal de São João del-Rei de 12 a 15 de outubro próximo. Em particular, a TICPE terá vários trabalhos apresentados – veja abaixo os títulos (e siga os links para visualizar os trabalhos completos, já disponíveis no site do evento).

Pôsteres:

Formação continuada on-line de docentes militares e a questão da autonomia“, de Pedro Henrique Bianco (mestre egresso recentemente!) e seu co-orientador, Alexandre Rosado.

Tipos de Usos das Tecnologias de Informação e Comunicação por um Grupo Professores de uma Instituição de Ensino Superior“, de Rejane Cunha Freitas (doutoranda) e sua orientadora, Giselle Ferreira.

A Educação Superior a Distância: como se Formam os Critérios de Qualidade para esta Modalidade“, de Leila de Souza Marins (mestranda) e sua orientadora Estrella Bohadana.

Filosofia Logo e Aprendizagem de Lógica de Programação em Curso Superior de Informática“, de Adriana da Silva Nogueira (mestranda) e seu co-orientador Alexandre Rosado.

Comunicações:

Introduzindo a programação de computadores em um curso do PROEJA“, de Helena Bártholo (mestre egressa, 2014) e sua orientadora, Giselle Ferreira.

A (Re) Invenção do Design Instrucional na Perspectiva da Complexidade“, de Aline Ferreira Campos (mestre egressa e, atualmente, doutoranda) e sua orientadora de mestrado, Lúcia Regina Goulart Vilarinho.

“Redes sociais: Facebook – possiblidade de apoio ao ensino presencial”, de Florencia Cruz da Rocha Ebeling (mestre egressa, 2014) e sua orientadora, Estrella Bohadana.

Um estudo da mediação docente sob o olhar dos professores-tutores“, de Maria Esther Provenzano (doutora egressa) e seu orientador, Márcio Lemgruber.