Tradução

e-Book “Education and technology: critical approaches”

CAPA_EBOOK_TIPCE_2017Following months of hard work, we are finally ready to publish our 2017 e-book, Education and Technology: critical approaches. This bilingual collection brings together 12 chapters written by researchers based in Brazil, Australia, Scotland, England and USA. The work has been edited by Giselle Ferreira, Alexandre Rosado e Jaciara Carvalho, members of the ICT in Educational Processes Research Group, who maintain this blog (mostly in Portuguese – at least so far!).

From the editors’ Introduction:

This volume offers a measure of sobriety in reaction to the excesses and hyperboles found in the mainstream literature on Education and Technology. The pieces (…) tackle questions of power and consider contextual and historical specificities, escaping the usual euphoria that surrounds digital technology and adopting different perspectives on our current historical moment.

Organised in three parts  – Scenarios, Specifities e Historicity – the book includes 24 suggestive imagens (here, as a gif) created by the Polish artist Pawel Kuczynski, who kindly agreed to our using them in this project. All of our publications include artwork that speaks to us in different ways, and Pawel’s images are particularly suitable for the issues dealt with in the latest volume.

Following the editors’ Introduction, the e-book includes a Preface by Ralph Bannell (PUC-Rio, Brazil), which, ‘inspired on recent developments in Phenomenology’, highlights questions of power and ‘outlines new possibilities co conceive the processes of cognition and learning’.

This excerpt from the Introduction explains the structure of the volume:

Parte I, Scenarios, includes four chapters that, as a whole, suggest ways to uncover and critically analyse continuities and discontinuities in Education and Technology.Pawel Kuczynski Neil Selwyn (Monash University, Australia) recovers Neil Postman’s seven critical questions as the basis for specific, clear and direct reflection on the area. Raquel Barreto (UERJ, Brazil) e Richard Hall (De Montfort University, England) discuss, with many commonalities, implications to Compulsory Education in Brazil and Higher Education in the North, respectively, of the current trend towards the mechanisation of relationships, processes and actions implicated in education. Completing the part, the organisers present preliminary findings of a review of academic literature in Portuguese, suggesting much work remains to be done before the area establishes itself in academic terms.

Subsequently, Part II, Specificities, discusses specific current themes. Giota Alevizou (UK Open University) analyses the relationship between Education and Media, discussing, in particular, the implications of the current ‘datafication’ of educational processes. Jeremy Knox (University of Edinburgh, Scotland) critically examines MOOC, which have been growing significantly in the USA and Europe and gradually arrive in Brazil, echoing their international expansion as large initiatives involving Higher Education Institutions (e.g. USP) and startups supported by venture capital (e.g. Veduca). Closing the part, Lesley Gourlay (Institute of EducationUniversity College London, England) proposes a critique of the binary ‘digital’ vs. ‘analogue’ and argues for the relevance of sociomaterial approaches.

The four chapters that compose Part III, Historicity, illustrate the importance of historical knowledge in contextualising and understanding the current status of technologies in education. Historicity is, for us, a key idea that needs to be more widely integrated in research into Education and Technology. Martin Weller (UK Open University) describes the development of the Open Educational Resources / Open Education movement from the perspective of an actor involved in this development since its inception, at the end of the 1990s. The subsequent chapters are texts we consider essential reading for anyone interested in Education and Technology. By Audrey Watters (California, USA), the ‘Cassandra of EdTech’, two chapters are included that were taken from her first collection of essays and talks, The Monsters of Educational Technology. (…) The part concludes with a ‘classic’ essay by Richard Barbrook e Andy Cameron (in memoriam), University of Westminster (England), which analyses ideological aspects that underlie the current digital technology industry, also on a historical-critical basis.

Educational and Technology: critical approaches will be launched locally in a small event at UNESA, in Rio de Janeiro, on the 4 May, with guest lectures by Ralph Bannell and Raquel Barreto.

Click here to download the book.

Publicação do e-Book TICPE 2017: agora é baixar e ler!

CAPA_EBOOK_TIPCE_2017Após meses de muito trabalho, disponibilizamos neste post o nosso e-book de 2017, Educação e Tecnologia: abordagens críticascompartilhado sob uma licença Creative Commons. A coletânea bilíngue reúne 12 capítulos de pesquisadores do Brasil, Austrália, Escócia, Estados Unidos, Inglaterra e Reino Unido e foi organizado por Giselle Ferreira, Alexandre Rosado e Jaciara Carvalho, integrantes do grupo TICPE.

Segundo a Apresentação dos organizadores:

“O volume oferece uma dose de sobriedade em reação aos excessos e exageros encontrados na literatura mainstream na área da Educação e Tecnologia. Os textos (…) abordam questões de poder e consideram especificidades contextuais e históricas, escapando da usual euforia em torno da tecnologia digital e partindo de perspectivas diversas do momento histórico que vivemos”.

Organizados em três partes – Cenários, Especificidades e Historicidade – os capítulos do e-book são intercalados por 24 imagens sugestivas (aqui, em gif) do artista polonês Pawel Kuczynski. Já é uma “tradição” nas publicações da TICPE apresentar ilustrações de artistas cujo trabalho provoca nosso grupo de pesquisa.

Após a Apresentação dos organizadores, o e-book apresenta um texto introdutório, de Ralph Bannell (PUC-Rio), “com inspiração em desenvolvimentos recentes na vertente fenomenológica da Filosofia”, que destaca questões de poder e “esboça novas possibilidades de conceber os processos da cognição e da aprendizagem”.

Mais um trecho da Apresentação, que explica a estrutura do volume:

A Parte I, Cenários, incPawel Kuczynskilui quatro capítulos que, no conjunto, sugerem caminhos para desvelar e criticamente analisar o cenário de continuidades e descontinuidades na Educação e Tecnologia. Neil Selwyn (Universidade de Monash, Austrália) retoma sete questões críticas propostas por Neil Postman como base para propor questionamentos objetivos, claros e específicos à área. Na sequência, Raquel Barreto (UERJ) e Richard Hall (Universidade De Montfort, Inglaterra) discutem, com muitos pontos de contato, implicações à Educação Básica no Brasil e à Educação Superior no hemisfério norte, respectivamente, da tendência corrente à mecanização das relações, processos e ações implicadas na educação. Completando a parte, os organizadores apresentam achados preliminares de um levantamento bibliográfico da produção na área em língua portuguesa, sugerindo que há muito trabalho a ser feito para que essa se estabeleça em termos acadêmicos.

Na sequência, a Parte II, Especificidades, apresenta discussões de temáticas atuais específicas. Giota Alevizou (Open University do Reino Unido) analisa o interlace da Educação com as Mídias, discutindo, em particular, as implicações do processo corrente de “datificação” dos processos educacionais. Jeremy Knox (Universidade de Edimburgo, Escócia) examina criticamente os MOOC, que, nos EUA e na Europa, têm se expandido significativamente, e, aos poucos, chegam ao Brasil em formas que ecoam as grandes iniciativas de instituições de Educação Superior e de startups apoiadas por capitalistas de risco. Finalizando a parte, Lesley Gourlay (Institute of EducationUniversity College London/ Inglaterra) parte de uma crítica à antinomia “digital” vs. “analógico” e argumenta a relevância de abordagens sociomateriais.

Os quatro capítulos que compõem a Parte III, Historicidade, ilustram a importância do conhecimento histórico como base para a contextualização e a compreensão da atual situação das tecnologias na educação. Historicidade é, para nós, uma das ideias estratégicas que precisam ser mais amplamente integradas em estudos da Educação e Tecnologia. Martin Weller (Open University do Reino Unido) relata o desenvolvimento do movimento dos Recursos Educacionais Abertos/Educação Aberta, no qual tem participado ativamente desde os seus primórdios, ainda no final da década de 1990. Os capítulos seguintes são textos que consideramos leitura essencial para qualquer interessado na área da Educação e Tecnologia. De Audrey Watters (EUA), a “Cassandra da Tecnologia Educacional”, incluímos dois capítulos de The Monsters of Educational Technology. A parte conclui com um texto “clássico” de Richard Barbrook e Andy Cameron (in memoriam), da Universidade de Westminster (Inglaterra), que analisa, a partir de uma base histórico-crítica, questões ideológicas que permeiam a indústria da tecnologia digital atual.

Educação e Tecnologia: abordagens críticas será lançado em evento presencial na UNESA, no Rio de Janeiro, em 4 de maio, com palestras do Prof. Ralph Bannell e da Profª Raquel Barreto. Você está convidado/a!

Clique aqui para baixar o livro.

Tradução 2: “A tecnologia educacional como ideologia”, de Neil Selwyn

f3836Complementando nosso “pacote de fim de ano”  🙂  , circulamos agora a segunda tradução de texto do sociólogo da Educação e Tecnologia britânico Neil Selwyn:  o capítulo 2 de Distrusting Educational Technology: critical questions for changing times (Desconfiando da Tecnologia Educacional. Londres: Routledge, 2014 – também disponível para Kindle), intitulado “Educational Technology as ideology”, em português, “Tecnologia educacional como ideologia“. Eis uma tradução da apresentação do livro:

Desconfiando da Tecnologia Educacional explora criticamente o consenso otimista que envolve o uso da tecnologia digital na educação. A partir de uma variedade de perspectivas teóricas e empíricas, o livro mostra como as formas aparentemente neutras da tecnologia educacional têm, de fato, servido para alinhar a oferta e as práticas educacionais a valores neoliberais, desgastando a natureza da educação como um bem público e direcionando-a às tendências individualistas do século XXI. Questionando amplamente as dimensões ideológicas da tecnologia educacional, este livro examina, em detalhes, tipos específicos de tecnologia educacional atualmente em uso na educação, incluindo a educação virtual, cursos “abertos”, jogos digitais e mídias sociais. Conclui com recomendações específicas na direção de formas mais justas de tecnologia educacional. Leitura ideal para qualquer pessoa interessada na natureza em rápida transformação da educação contemporânea, Desconfiando da Tecnologia Educacional constitui uma crítica ambiciosa e muito necessária.

O capítulo 2 analisa (como o texto compartilhado anteriormente, de forma quase “didática”) várias concepções de “ideologia”, de forma a construir uma base para a discussão de Educação e Tecnologia como uma área caracterizada por conflitos e tensões de natureza fortemente política, mas que tendem a ser ignorados. Em outras palavras: o capítulo oferece um uma discussão aprofundada e muitíssimo bem argumentada em oposição à ideia de que a tecnologia é neutra.

Trata-se, aqui, de um texto bem mais denso do que o anterior (em parte, devido à complexidade da discussão sobre o tema central, “ideologia”), mas que articula as bases propostas na apresentação do livro. Os capítulos subsequentes exploram o que, de fato, consiste em ilustrações, exemplos específicos de “gêneros da tecnologia educacional” atual, conforme Selwyn explica no final do capítulo inicial: “virtual”, “aberta”, “jogos” e “social”. Vale analisar, também, a lista de referências, que inclui muitas possibilidades interessantes de outras leituras.

Desejamos boas leituras a todos – e fiquem por aqui, pois, mais tarde, circularemos novidades sobre nosso e-book anual!

Clique aqui para baixar “Tecnologia Educacional como ideologia“, de Neil Selwyn.

Clique aqui para acessar o texto que disponibilizamos ontem, “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’?“, do mesmo autor.

Tradução 1: “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’?”, de Neil Selwyn

f3836Na sequência do anúncio feito em postagem de ontem, compartilhamos agora o primeiro texto prometido, do sociólogo da Educação e Tecnologia britânico Neil Selwyn: o capítulo 1 do livro Education and Technology: key issues and debates (Londres: Routledge, 2011 – recentemente disponibilizado em sua segunda edição)Em tradução, eis a apresentação sucinta do livro:

A tecnologia digital está no coração da oferta educacional contemporânea. Este livro considera aspectos-chave da área e discute questões fundamentais – ainda que quase nunca verbalizadas – pertinentes ao uso crescente de tecnologias na educação. Focaliza aspectos sociais e técnicos dessas questões, reflete cuidadosamente sobre as pessoas, práticas, processos e estruturas envolvidas no uso de tecnologias na educação, e considera uma gama de debates e controvérsias correntes. A tecnologia substituirá a escola ou a universidade? A tecnologia substituirá o professor? O que realmente sabemos a respeito da relação entre aprendizagem e tecnologia? A tecnologia torna a aprendizagem mais justa? A tecnologia pode apoiar a resolução dos muitos problemas e desigualdades educacionais que confrontam pessoas ao redor do mundo? Qual o futuro da tecnologia e educação? Neil Selwyn lança um olhar crítico a alguns dos debates centrais sobre as tecnologias digitais na educação. O volume inclui questões de estudo e listas anotadas de leituras recomendadas, bem como um Website com sugestões de fontes e recursos complementares.

O capítulo traduzido é intitulado “What do we mean by ‘education’ and ‘technology’?”, em português, “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’“?.  Nesse capítulo, o autor examina diferentes concepções de “educação” e “tecnologia” de forma quase “didática”, lançando as bases para a apresentação de uma concepção mais abrangente de tecnologia educacional. Concebendo “tecnologia” de forma que engloba atores, relações, práticas e contextos, além de artefatos, é possível conduzir-se análises que revelam questionamentos bem mais interessantes e profundos do que as questões meramente instrumentais associadas ao “uso” de artefatos digitais em situações educacionais.

É interessante notar a consistência entre a concepção de “tecnologia” trazida em um post passado (uma tradução que fiquei devendo, mas que, um dia, terminarei) e a proposta de Selwyn, apesar dos autores (aparentemente) terem se apoiado em fontes bastante diferentes.

Nossa escolha em trabalhar com esse capítulo deve-se, além daquilo que percebemos como um “didatismo”, à sua natureza de “síntese situada”: ideias complexas de várias áreas são articuladas e situadas no contexto da Educação, que nem sempre é o caso em textos especialistas (da Filosofia da Técnica, por exemplo, que são bem menos acessíveis a leitores não especializados). A lista de referências utilizada é riquíssima – além de textos já considerados “clássicos” (como a trilogia A Era da Informação de Castells), engloba muitos outros autores que permanecem, como Selwyn, pouco divulgados por aqui.

Paro por aqui, mas volto amanhã com o segundo texto – até lá, boa leitura!

Clique aqui para baixar o “O que queremos dizer com ‘educação’ e ‘tecnologia’“?, de Neil Selwyn.

Educação e tecnologia em perspectiva crítica: traduções de textos de Neil Selwyn chegando!

Com enorme satisfação, compartilharemos, nos próximos dias, traduções para o português de dois textos excelentes do sociólogo da Educação e Tecnologia Neil Selwyn, professor titular na Universidade de Monash, em Melbourne, na Austrália.  Neil é um dos autores mais interessantes na área da Educação e Tecnologia no idioma inglês (seu trabalho já foi mencionado em algumas postagens passadas), de modo que é com grande alegria que disponibilizaremos aqui uma pequena amostra de sua produção (recomendadíssima, aliás) como material para “degustação” e difusão entre leitores e estudiosos lusófonos interessados na área.

Ainda que a escrita de Neil seja incrivelmente lúcida e “fluida”, e ainda que seus livros sejam apresentados como livros-texto destinados a um público não especializado, o autor articula ideias complexas de áreas como a Filosofia e a Sociologia e incorpora muitos neologismos e “regionalismos” (alguma linguagem coloquial), tornando os textos de difícil compreensão para quem não tem uma fluência mínima no idioma. Assim, com o seu aval, preparei traduções para usarmos na disciplina que ministramos no semestre que se encerra (2016.2), Educação e Tecnologia: perspectivas críticas (assunto para outro post!), traduções que circularemos aqui em versão aprimorada e formatada para leitura em e-readers.

Neil defende uma posição inteiramente consistente com as formas de pensar que temos construído coletivamente no grupo TICPE, sintetizadas em termos de uma demanda por maior contextualização e historicidade na discussões sobre a relação entre educação e tecnologia. Em primeiro lugar está a ideia de que é essencial que estejamos atentos à linguagem utilizada nas discussões sobre Educação e Tecnologia, posição também defendida por Neil, por exemplo, neste artigo. Além disso, sentimos um forte incômodo com o uso indiscriminado de categorias macro (como “nativos digitais” – assunto de um post passado), em particular, na ausência de recurso à empiria, como vê-se no gênero “futurologia”, que parece estar sempre a descrever um mundo que “poderia ser” como se fosse o mundo “que é”. Neil aborda tais questionamentos de forma acessível, direta e sempre bem fundamentada em uma ampla gama de literatura acadêmica pertinente e dados empíricos.

Os capítulos são relativamente longos, e a tradução foi trabalhosa (e, como sempre, permanece incompleta no sentido em que detalhes sempre nos escapam, independentemente de quantos “pares de olhos” se debrucem em revisões), então, para nós, faz todo sentido compartilhar os textos com colegas e estudantes para além do nosso PPGE. Esperamos que os textos circulem amplamente e venham a apoiar discussões tão interessantes quanto as que temos conduzido com os nossos alunos.

As traduções serão disponibilizadas também em meu perfil na plataforma academia.edu, site onde Neil mantém um perfil que utiliza para circular parte de sua produção.

Volto amanhã com o primeiro texto, mas, deixo com vocês uma curta entrevista com Neil, realizada em um evento organizado em 2016 pelo Centro de Estudios Fundación Ceibal, no Uruguai. Sua fala (com legendas em castelhano), apresentada em duas partes, aborda temáticas que constituem alguns dos rótulos mais comentados atualmente na Tecnologia Educacional, incluindo Analítica da Aprendizagem (Learning Analytics) e BYOD (Bring Your Own Device – Traga Seu Próprio Artefato), mas seus questionamentos, como sempre, são estruturados em torno de temas e problemas educacionais. 

Parte 1

Parte 2

 

Qualidade na Educação Superior – reflexões sobre um trabalho de tradução

Por Giselle Ferreira e Laélia Moreira

Este post reúne alguns comentários relativos ao nosso trabalho de tradução da revisão de literatura sobre qualidade na Educação Superior conduzida por Lee Harvey (Membro da International Network for Quality Assurance Agencies in Higher Education, INQQAHE, e Professor Emérito da Copenhagen Business School, Dinamarca) e James Williams (Professor na Escola de Educação da Birmingham City University, Reino Unido), publicada em 2010 na revista Quality in Higher Education (HARVEY; WILLIAMS, 2010a; 2010b). A tradução, em si, constitui um produto do projeto Qualidade no Ensino Superior a Distância para a Formação de Professores: um mapeamento crítico (MOREIRA; FERREIRA, 2012), e foi desenvolvida, inicialmente, com o objetivo de viabilizar a utilização do texto com nossos alunos de pós-graduação que contribuem para a execução do projeto. No entanto, dada a riqueza do trabalho, bem como a importância do debate correspondente no Brasil, com a permissão e o aval dos autores do texto original, decidimos refinar a versão inicial e submetê-la à apreciação da revista Educação e Cultura Contemporânea para uma possível publicação.

É com grande satisfação que podemos, agora, divulgar a tradução, publicada em duas partes, como o texto original, nos dois números mais recentes da REEDUC, acessíveis através dos links a seguir: Parte I e Parte II.

A revisão de Harvey e Williams oferece uma análise da área de garantia de qualidade na Educação Superior (ES), baseada nas contribuições publicadas na própria Quality in Higher Education, uma das revistas mais conceituadas na área da Educação Superior (ES). Assim, ainda que não se trate de uma revisão exaustiva da literatura, por demais extensa não somente no idioma inglês, mas, também, no Brasil, constitui uma amostra significativa dos desenvolvimentos ocorridos, na área, de 1995 a 2010, das temáticas centrais às discussões sobre qualidade conduzidas ainda hoje, oferecendo, desse modo, uma visão geral e um mapeamento possível da área. Nosso propósito, nessa breve introdução, é apresentar algumas informações complementares que possam vir a ser úteis a outros pesquisadores e estudantes, principalmente àqueles que estejam iniciando seus estudos na área.

De modo a explicitar nossa ideia de que o texto pode ser visto como um mapa da área, elaboramos alguns esquemas gráficos que representam as temáticas abordadas e a presença de diferentes países na discussão internacional, incluindo o Brasil. As figuras 1 e 2 apresentam as temáticas discutidas nas Partes I e II do texto, respectivamente, e a figura 3 mostra as regiões e países representados nos estudos incluídos na análise. A presença de trabalhos desenvolvidos no Brasil na área de garantia de qualidade é pequena, na revisão, o que, segundo nossas investigações, não reflete a extensão da pesquisa e da literatura acadêmica produzida sobre o assunto no país.

Vale ressaltar que a expansão da presença das TIC na Educação não é tratada de forma sistemática nos trabalhos incluídos na revisão, mas isso não significa que não se trate de contingência fundamental às transformações contemporâneas da ES e, assim, às várias temáticas abordadas na revisão.

Temáticas Parte I

Figura 1: Mapa das temáticas tratadas na Parte I da revisão (HARVEY; WILLIAMS, 2010a) 

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Temáticas Parte II

Figura 2: Mapa das temáticas tratadas na Parte II da revisão (HARVEY; WILLIAMS, 2010b)

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Sistemas Nacionais

Figura 3: Mapa das regiões e países representados na revisão

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Não é necessário conduzir-se uma análise aprofundada dos textos para que se identifique a predominância de discursos empresariais e de gestão em muitos dos artigos analisados por Harvey e Williams. Alguns desses trabalhos oferecem pistas relativas à gradual adoção de tais discursos na Educação, sugerindo uma clara relação com os processos de mercantilização da Educação e corporativização da Educação Superior.

Esses processos tomam formas variadas em contextos diferentes, em correlação com contingências tais como o sistema de financiamento e normatização da ES, bem como as tradições e culturas acadêmicas locais. Parece tratar-se de uma área interdisciplinar desconfortavelmente situada entre a Educação e a Gestão, conforme os trabalhos examinados na Parte II, em particular, atestam.

Essa Parte evidencia, especialmente, no que se refere à avaliação e garantia de qualidade, as fortes tensões entre agendas de uma ES que funcione top-down (da gestão para o corpo acadêmico) ou bottom-up (do corpo acadêmico para níveis gradativamente mais numerosos de gestão). Esse é o contexto geral internacional, particularmente na União Europeia, onde a movimentação na direção da unificação das qualificações de instituições de ES nos países integrantes imposta pelo Tratado de Bolonha, bem como as múltiplas transformações e reconfigurações dos sistemas nacionais de financiamento da ES, principalmente no Reino Unido, estão gradativamente fortalecendo modos de gestão educacional top-down.

Ao longo da tradução, lançamos mão de notas de rodapé (N.T.) para incluir elucidações e detalhes sobre especificidades dos sistemas educacionais de outros países, principalmente do Reino Unido e alguns outros países da Europa, bem como explicações sobre idiossincrasias dos termos em inglês utilizados na área. Um dos termos recorrentes é o substantivo academic, que traduzimos como “acadêmico”, apesar das diferenças entre conotações nos dois idiomas. O academic inglês é, primordialmente, um pesquisador-professor, que, via de regra, trabalha em uma única universidade. Isso configura uma situação bastante distinta daquela vivida pelo professor da Educação Superior no Brasil.

Em outros casos, optamos por manter o termo em seu original, para manter a consistência com a literatura nacional ou evitar expressões muito longas (por exemplo, stakeholder, benchmarking e compliance, ou seja, partes interessadas, criação de termos de referência e cumprimento das normas, respectivamente), ou por tratar-se de uma expressão sem equivalente satisfatório em português, como value for money, por exemplo, ou seja, a ideia de algo que tem um custo aceitável e é eficaz ou admissível, em comparação a alternativas talvez melhores, porém mais onerosas.

Tentamos também indicar variações linguísticas entre os sistemas nacionais. Um exemplo é o termo e-learning, cujo uso na Europa é muito mais abrangente do que no Brasil, e manter, ao máximo, alguma fidelidade a termos e expressões idiossincráticas de autores, como grassroots academics, trust killers e sense of coherence, dentre outras. Adicionalmente, tendo em vista um público que talvez viesse a incluir iniciantes ou não-especialistas nas linguagens da gestão, oferecemos também algumas explicações e referências adicionais complementares, tais como, “organizações que aprendem” e “comunidades de prática”.

A situação no Brasil é, naturalmente, diferente da maior parte dos contextos estudados nos textos incluídos na revisão de Harvey e Williams, mas reflexos, no país, da internacionalização da ES são claros, e as controvérsias em torno da Educação a Distância, em particular, tornam essencial a questão da avaliação da qualidade.

Muitos dos textos analisados dedicam-se à questão de definir “qualidade”, e os próprios autores da revisão são referências básicas na temática, citados com frequência por autores brasileiros. Trata-se de uma questão recorrente e fundamental nos debates na área, mas que pode levar a uma certa esterilidade. Ao que indica a revisão de numerosos trabalhos a ela dedicados, não parece ser solucionável sem relação a especificidades contextuais, e sem considerar-se o que pode ser descrito como um “choque cultural” entre a cultura acadêmica mais “tradicional” e as perspectivas empresariais que sustentam grande parte da discussão sobre garantia de qualidade.

Harvey (2010) é bem explícito em seu julgamento do impacto da garantia de qualidade, afirmando que essa não apenas simplesmente falhou em não ter concretizado uma aproximação entre essas culturas, mas, também, fomentou a falta de confiança entre as partes interessadas (docentes, alunos, funcionários administrativos e gestores) evidenciada em parte das pesquisas analisadas na revisão. A percepção de que os processos de avaliação de qualidade são conduzidos ritualisticamente, de acordo com scripts e caracterizados por certa teatralidade, como uma forma de adaptação a demandas externas de garantia de qualidade, conforme sugerido por Barrow (1999), não é consistente com a noção de que tais processos fomentam melhoria e transformação.

Os autores finalizam sua análise indagando se a qualidade da ES poderia ter melhorado sem a instituição de sistemas de garantia de qualidade. No Brasil, nos parece que seria um capricho lançar tal questão de forma simplesmente retórica, quando o foco em “qualidade” talvez seja a única saída do dilema público-privado que caracteriza muitos dos debates sobre a ES.

Clique aqui para acessar a Parte I da tradução.

Clique aqui para acessar a Parte II da tradução.

Referências

BARROW, M. Quality-management systems and dramaturgical compliance, Quality in Higher Education, v. 5, n. 1, p. 27–36, 1999.

MOREIRA, L. C. P.; FERREIRA, G. M. S. Qualidade no Ensino Superior a Distância para a Formação de Professores: um mapeamento crítico. Projeto de Pesquisa. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estácio de Sá. Disponível em: < https://ticpe.wordpress.com/pesquisa/#Discursos >. Acesso em: 15 mar. 2014.

HARVEY, L. Twenty years of trying to make sense of quality assurance: the misalignment of quality assurance with institutional quality frameworks and quality culture. In: 5th European Quality Assurance Forum. Building Bridges: Making sense of QA in European, national and institutional contexts. Disponível em: < http://www.eua.be/Libraries/EQAF_2010/WGSII_7_Papers_Harvey.sflb.ashx>. Acesso em: 17 fev. 2014.

HARVEY, L.; WILLIAMS, 2010a. Fifteen years of Quality in Higher Education. Quality in Higher Education, v. 16, n. 1, p. 3-36, 2010.

HARVEY, L.; WILLIAMS, 2010b. Fifteen years of Quality in Higher Education (Part Two). Quality in Higher Education, v. 16, n. 2, p. 81-113, 2010.

Leituras recomendadas: Huxley, Orwell e Postman

Parte do trabalho que fazemos com os alunos da TICPE envolve a utilização de obras da Literatura e do Cinema que julgamos pertinentes a discussões sobre as relações entre Tecnologia e Educação. Dentre nossas recomendações, figuram, com especial destaque, os livros 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. O contraponto entre os cenários imaginados por esses escritores ingleses abre um leque de possibilidades interessantes para pensarmos sobre o mundo atual, conforme sugerido por Neil Postman no prefácio de seu livro Amusing ourselves to death. Public Discourse in the Age of Show Business (edição original de 1985).

Mesmo tendo sido escrito bem antes da Web aparecer, o livro de Postman permanece bastante atual e, assim, figura em nossa lista de recomendações de leitura complementar (opcional, pois não parece haver nenhuma tradução para o português). A edição comemorativa de 20 anos de publicação da obra (Londres: Penguin, 2005) inclui uma introdução que discute a relevância continuada da crítica oferecida por Postman (que também têm críticos – mas isso é uma outra história…).

Compartilho abaixo uma tradução do prefácio – e recomendo fortemente a leitura dos livros!

Estávamos de olho em 1984. Quando o ano chegou e a profecia não se cumpriu, os norte-americanos (estadunidenses) sérios cantaram docemente em louvor a si mesmos. As raízes da democracia liberal se haviam sustentado. Onde quer que o terror houvesse se materializado, nós, pelo menos, não fôramos visitados pelos pesadelos de Orwell.

No entanto, havíamos esquecido que, ao lado da visão sombria de Orwell, havia outra – mais velha, ligeiramente menos conhecida, igualmente deprimente: o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Em oposição à crença generalizada até mesmo dentre os mais cultos, Huxley e Orwell não profetizaram a mesma coisa. Orwell avisa que seremos subjugados por uma opressão externamente imposta. Na visão de Huxley, porém, nenhum Grande Irmão é necessário para privar as pessoas de sua autonomia, maturidade e história. Segundo ele, as pessoas virão a amar sua opressão, a adorar as tecnologias que destroem suas capacidades de pensar.

Orwell temia aqueles que banissem os livros. Huxley temia que não houvesse motivos para se banir os livros, pois não haveria quem os quisesse ler. Orwell temia aqueles que nos privassem de informação. Huxley temia aqueles que nos dessem tanta informação que ficaríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade nos fosse ocultada. Huxley temia que a verdade se afogasse em um mar de irrelevância. Orwell temia que nos tornássemos uma cultura cativa. Huxley temia que nos tornássemos uma cultura trivial, preocupada com algum equivalente do CinemaSensível, do Orgião-espadão e da Balatela Centrífuga. Conforme Huxley observou em Admirável Mundo Novo, os libertários e racionalistas civis que estão para sempre em alerta para opor a tirania “fracassaram ao ignorar o apetite quase infinito do homem por distrações”. Em 1984, Huxley complementou, o homem é controlado por meio da dor. No Admirável Mundo Novo, o controle é por meio do prazer. Em suma, Orwell temia que aquilo que detestamos nos arruinará. Huxley temia que aquilo que amamos nos arruinará.

Este livro é sobre a possiblidade de que Huxley, não Orwell, estava certo.

POSTMAN, N. Amusing ourselves to death. (p. xix-xx). Londres: Penguin, 2005.